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Arte, política e história num festival: Começa hoje o Doclisboa

O evento decorre até 30 de outubro e é uma referência a nível europeu em termos de cinema documental com uma programação que inclui quase 260 títulos.

Com uma vasta programação que inclui quase 260 títulos, o Doclisboa decorre entre 20 e 30 de outubro – com as sessões principais dividindo-se entre Culturgest, cinema São Jorge e Cinemateca. Será a 14ª edição de um evento que, atualmente, também é uma referência a nível europeu em termos de cinema documental.

A competição internacional terá 18 títulos e a nacional 12 – onde a duração é variada e convivem curtas e longas-metragens. Diversos prémios paralelos serão atribuídos às mais diferentes secções – entre as quais Verdes Anos, dedicada a jovens cineastas e onde competem 23 trabalhos.

As raras artes

Uma reflexão sobre as diferentes formas de expressão artística passa pelos filmes de abertura e encerramento, compondo com a secção Hear Beat uma ampla passagem pelo mundo das artes.

A música clássica dá o tom de abertura com o espanhol “Oleg y las Raras Artes” [foto da notícia], obra que aborda a figura de Oleg Karavaychuk, legendário pianista russo recentemente falecido.

O realizador Andrés Duque foi um dos raros ocidentais a conquistar a confiança do excêntrico músico que, partir dos anos 50, também trabalhou em diversas bandas sonoras – segundo o próprio, 'por ser a única forma de expressão não proibida pelo KGB'…

Navegando por caminhos mais próximos, João Monteiro e o seu “Nos Interstícios da Realidade ou o Cinema de António de Macedo” [foto] encerram o Doclisboa com uma abordagem sobre o mais prolífico cineasta português do Cinema Novo.

Partindo de um objetivo expresso de trazer à tona as histórias 'não contadas' do cinema português, Monteiro mergulha na obra de um realizador que ousou enveredar pelo cinema de género (responsável por raros exemplares lusitanos de ficção científica e fantástico, por exemplo) e desagradar à intelectualidade estabelecida dos anos 60 e 70.

O fantasma do Castelo de Hérouville

Uma das mais apetecíveis secções do Doclisboa é sempre a Heart Beat e, neste ano, nada menos que 13 títulos abordam praticamente de tudo - desde teatro (“Angélica – una Tragedia”), ópera (“Confession of the Vanished”), dança contemporânea (“In the Steps of Trisha Brown”), arquitetura (“Having a Cigarette with Álvaro Siza”), cerâmica (“Como se não Existisse Nada”) e, claro, muita cinema e música.

Neste último caso, certamente o nome de David Bowie é o mais sonante junto do grande público – mas o tema interessa mesmo é aos fãs da parte mais experimental da obra do artista. A meio dos anos 70, Bowie juntou-se ao genial Brian Eno e ao produtor Tony Visconti para uma temporada de criação no estúdio Hérouville – um castelo do século XVIII por onde já tinham passado nomes como Grateful Dead e Elton John.

Mas nem tudo correu de forma 'normal' nestas sessões: em tempos póstumos, os três juraram a pés juntos que o castelo estava 'assombrado' e vários acontecimentos sobrenaturais aconteceram por lá.

Verdade ou não, o resultado foi “Low”, um dos mais celebrados experimentos da história do pop. O acontecido (ou não…) é o tema de “Bowie, Man with a Hundred Faces or The Phantom of Hérouville”.

O DocLisboa também traz ritmos africanos (“Fonko”), “cariocas” (“Invisible the Mind of Favela Funk”) e indianos (“Junun”) – este último uma obra de Paul Thomas Anderson que conta com a participação de músicos dos Radiohead.

Por fim, “I Am the Blues” é um passeio pelos pequenos estabelecimentos da Lousiana, um dos berços do blues, encontrando octogenários remanescentes do delta do Mississipi que por lá ainda tocam – sem agentes nem digressões.

No universo cinematográfico, duas obras de caráter biográfico revelam a intimidade de mestres de diferentes gerações e estilos: Sidney Lumet, autor de uma obra de vincado cariz social, é o tema de “By Sidney Lumet”, enquanto “David Lynch: The Art Life” acompanha o mais famoso cineasta da 'arthouse' norte-americana num passeio pelas ruas das pequenas cidades onde cresceu – continuando depois na Filadélfia.

A história de Guantánamo

A vertente política do festival já foi parcialmente destacada em artigo anterior do SAPO Mag, mas, para além dos filmes do Cinema de Urgência, vale a pena salientar ainda as vastas retrospetivas dedicadas ao realizador Peter Watkins e à produção cubana dos anos 50 aos 80.

No primeiro caso, serão exibidos 15 trabalhos de Watkins, já vencedor de Óscar por “The War Game”, em 1966 – obra onde desenvolvia uma alegoria à Terceira Guerra Mundial. Ele foi um dos pioneiros do docudrama, umas das mais proeminentes tendências do cinema indie atual, para além dos seus temas estarem ligados à resistência política e ao questionamento dos medias.

A política não é o único tema dos quase 40 títulos, entre curtas e longas, dedicados ao país da América Central em “Retrospetiva por um Cinema Impossível: Documentário e Vanguarda em Cuba” – um amplo panorama focado, principalmente, nos anos 60 e 70. Entre os destaques, “Guantánamo” conta a história da localidade mais tarde célebre pelos abusos do governo dos Estados Unidos.

O lado mais experimental do DocLisboa fica por conta da “Riscos”, que apresenta uma homenagem ao recentemente falecido Peter Hutton, enquanto panoramas do cinema mundial compõem a “Doc Alliance” e “ Da Terra à Lua” – inaugurada nesta edição e que traz obras de nomes consagrados, como Werner Herzog, Sergei Loznitsa, Mark Cousins, Rithy Pahn, Wang Bing e Avi Mograbi.

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