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Atores falam de Manoel de Oliveira na homenagem dos Cahiers du Cinema ao cineasta

Leonor Silveira, Luís Miguel Cintra e Diogo Dória escrevem sobre o realizador que os dirigiu em tantos filmes, juntando-se a especialistas no especial da revista de cinema francesa.

A homenagem da revista francesa Cahiers du Cinéma ao cineasta português Manoel de Oliveira, na edição de maio, conta com textos dos atores Leonor Silveira, Luís Miguel Cintra e Diogo Dória, assim como artigos de especialistas no cinema português.

Leonor Silveira, uma das atrizes da «família do cinema de Manoel» - nas suas próprias palavras - escreve: «Olho para trás e apercebo-me que foram 24 anos passados ao lado dele. É uma vida inteira. É a minha vida. A minha vida tornou-se indissociável da vida deste homem. Digo-o muitas vezes: sou uma atriz improvável».

A protagonista de «Vale Abraão» destacou a «fascinação» que Manoel de Oliveira tinha pela figura feminina, relembrou alguns aspetos da «abordagem dominadora, invasiva e, muitas vezes, obsessiva do Artista» e considerou: «Se fui - como ele disse após as filmagens de «O Gebo e a Sombra» - uma luz na sua obra, ele foi para mim a inspiração suprema».

O ator Luís Miguel Cintra, num texto intitulado «Manoel, estou a olhar para si», descreveu-se como «um dos brinquedos do seu circo», considerando os filmes do cineasta como «o local dos artifícios onde moram os atores».

«A melhor imagem que tenho dele é aquele breve plano no início de «Acto da Primavera» em que ele está atrás da câmara em contrapicado. Não é uma posição de narrador. É uma posição de poeta. Ele não é um testemunho, ele é acima de tudo uma criança. Ele é curioso como uma criança em cima de uma árvore e fabricou-se uma imagem múltipla e viva, um outro universo como um quarto de criança», escreveu o ator que entrou na trupe do realizador em «Le Soulier de Satin» («O Sapato de Cetim»), em 1985.

Diogo Dória escreveu uma «Carta a Manoel de Oliveira» na qual relembrou, por exemplo, «a experiência inesquecível, a cerimónia, a missa de adeus» que constituíram as filmagens do último filme do cineasta, «O Velho do Restelo».

A edição conta, ainda, com artigos assinados por especialistas da obra de Manoel de Oliveira, como António Preto, Mathias Lavin, Guillaume Bourgeois e Jacques Lemière, assim como uma entrevista a Valérie Loiseleaux, «que montou quase todos os filmes de Manoel de Oliveira» desde ««A Divina Comédia», em 1991 a «O Gebo e a Sombra», em 2012» – uma relação evocada no filme «Les Gants Blancs», da realizadora francesa Louise Traon, exibido na recente edição do festival IndieLisboa.

A homenagem de 36 páginas termina com as páginas «The End», nas quais figuram um texto intitulado «Oliveira & Girls», ao lado de uma fotografia a preto e branco de 1932, com o jovem Manoel rodeado de sete mulheres, na composição piramidal de uma imagem de promoção da Tóbis Portuguesa, que produziu «A Canção de Lisboa», filme de Cottinelli Telmo, no qual Oliveira interpretou «um papel de boémio galante».

«O seu começo como ator não mais seria do que - como ele explicará mais tarde - um estratagema para se aproximar do 'plateau', para observar como construir as cenas ou colocar a câmara; em suma, uma entrada clandestina no cinema», concluiu o professor e ensaísta António Preto, coordenador do terceiro volume do catálogo «Manoel de Oliveira», da exposição que Serralves dedicou ao cineasta, e comissário da mostra «Manoel de Oliveira/ José Régio, releituras e fantasmas», do Centro de Memória de Vila do Conde e Casa-Museu José Régio, em 2009.

«Os grandes cineastas são aqueles que mudam a marcha do tempo, não apenas durante os seus filmes, mas ao longo da sua obra. Com Oliveira, as bússolas entravam em pânico», lê-se no editorial dos Cahiers, assinado pelo chefe de redação, Stéphane Delorme.

«Para demonstrar a amplitude do seu cinema, [o ensaísta] Raymond Bellour usou a palavra 'civilização'. Mas é preciso perceber exatamente onde a civilização entra em choque com a selvajaria», prossegue o editoral inteiramente dedicado ao cineasta.

«Foi Manoel de Oliveira que demonstrou (antes do tempo) o suicídio atual do continente europeu, com a explosão, de uma crueldade inaudita, do barco-Europa, no final de «Um Filme Falado». Amar Oliveira, hoje, é também manter a memória da sua versatilidade e da sua violência provocadora», concluem os Cahiers, sobre o cineasta que morreu a 02 de abril, aos 106 anos.

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