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Carlos Saboga estreia-se como realizador aos 76 anos com «Photo»

Carlos Saboga, com mais de 30 anos na escrita de argumentos no cinema português, estreia-se na realização, aos 76 anos, com «Photo», filme sobre passado e identidade, que chega aos cinemas na quinta-feira.

«O Lugar do Morto» (1984), de António-Pedro Vasconcelos, «Matar Saudades» (1986), de Fernando Lopes, e «Mistérios de Lisboa» (2010), de Raul Ruiz, são três exemplos de filmes cujo argumento têm a assinatura de Carlos Saboga, mas o nome e o protagonismo do argumentista ficam quase sempre relegados para segundo plano.

Agora, Carlos Saboga decidiu assumir a realização, num filme no qual assina também a história, que transita entre Portugal e França, entre o passado e o presente, tal como a sua própria vida.

Produzido por Paulo Branco, «Photo» parte de um conjunto de fotografias enigmáticas que a personagem Elisa (a atriz Anna Mouglalis) descobre depois da morte da mãe, a autora das imagens, e nas quais estão retratados três homens durante os anos 1960 e 1970.

As interrogações sobre o passado, sobre a identidade daqueles homens (e sobre possível ligação parternal a um deles) conduzirão Elisa a Portugal, onde descobrirá ainda implicações de um antigo agente da PIDE.

A história de «Photo» tem alguns pontos de contacto com o percurso de Carlos Saboga e com essa sensação de não pertença a um país, como contou à agência Lusa.
Nascido na Figueira da Foz, Carlos Saboga partiu para o exílio nos anos 1960 e vive atualmente em Paris. Apesar da dupla nacionalidade e dos regressos regulares a Portugal, sente-se muitas vezes um estrangeiro, num país ou noutro.

Começou por ser assistente de realização, mas a escrita de argumentos para cinema e televisão acabou por se ir impondo, ao ponto de pensar que ser realizador «era irrealizável». Escreveu para cinema e televisão em França, Itália e Portugal e está ligado a filmes como «O Milagre Segundo Salomé» e «Um Amor de Perdição», ambos de Mário Barroso (que assina a direção de fotografia de «Photo»), «Jaime» e «Aqui d'el Rei!», de António-Pedro Vasconcelos, e o recente «Linhas de Wellington», de Valeria Sarmiento.

Da biografia consta ainda que trabalhou como tradutor, jornalista, crítico de cinema, que foi «selecionado aqui e ali em diversos concursos e festivais de vária monta. Raramente recompensado. Sem diplomas».

Carlos Saboga reconheceu que o argumentista tem um «trabalho muito anónimo», que é raramente citado pela crítica, e que tem de lidar com um certo desfasamento entre aquilo que escreve e o que acaba por ser dito pelos atores e que resulta num filme.

O argumentista, que não é mais do que um escritor de histórias para cinema, está atualmente à procura financiamento para o próximo filme, novamente no duplo papel de autor e realizador.

«Photo», que integra no elenco Simão Cayatte, Rui Morrison, Joan Leysen, Didier Sandre e Ana Padrão, foi exibido no ano passado no festival de cinema de Roma e já teve estreia comercial em França.

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