Artigo

Cineasta Paulo Rocha morreu hoje aos 77 anos

O cineasta português Paulo Rocha, autor do filme «Os Verdes Anos» (1963), morreu hoje, aos 77 anos, disse à Lusa uma familiar do realizador. Maria João Seixas, Margarida Gil e o secretário de estado da cultura já lamentaram a morte do artista.

Paulo Rocha estava hospitalizado num hospital privado da zona do Porto e «morreu esta manhã», acrescentou fonte da família do realizador. Nascido no Porto a 22 de dezembro de 1935, Paulo Rocha, que tinha acabado de fazer 77 anos, foi um dos fundadores do movimento estético designado como «Cinema Novo», tendo um assinado um dos filmes mais simbólicos desse período, «Os Verdes Anos», em 1963.

Depois de ter frequentado o curso de Direito, Paulo Rocha iniciou-se no cinema em Paris, para onde foi em 1959 estudar realização. Torna-se assistente de realização do cineasta francês Jean Renoir e quando regressa a Portugal trabalha como assistente de Manoel de Oliveira em «Acto da Primavera», em 1963. É também nesse ano que o realizador assina umas das mais importantes obras do cinema português, «Os Verdes Anos», tornando-se aí uma referência no movimento que tentou (e conseguiu) renovar o cinema nacional.

«Mudar de Vida» (1966), «A Pousada das Chagas» (1972), «A Ilha dos Amores» (1982), «A Ilha de Moraes» (1984), «O Desejado» (1988), «Máscara de Aço Contra Abismo Azul» (1989), «O Rio do Ouro» (1998), «A Raiz do Coração» (2000) e «Vanitas» (2004) foram algumas das obras do realizador.

Paulo Rocha assinou também dois ensaios fílmicos consagrados a Manoel de Oliveira e a Shohei Imamura, integrados na famosa série «Cinéastes de Notre Temps».

As primeiras reações

A diretora da Cinemateca Portuguesa, Maria João Seixas, lamentou hoje a morte do realizador, «um dos seminais do Novo Cinema Português» que influenciou muitas gerações de cineastas. «Estou particularmente triste. Foi um ano muito madrasto para o cinema português», comentou, em declarações à agência Lusa, referindo-se ainda ao desaparecimento, também este ano, em maio, do cineasta Fernando Lopes, com 76 anos.

«Ele abriu as portas, o olhar, o modo de nos olharmos e registarmos em imagens em movimento, o que somos, o que sonhamos ser, o que queremos ser», disse a diretora da Cinemateca sobre o realizador. «Temos a sorte de ficarmos com um legado precioso. Assim o saibamos conservar, preservar, e ver», referiu a responsável, acrescentando que todas as sessões de cinema que se realizarem hoje na Cinemateca o serão dedicadas a Paulo Rocha.

A responsável indicou ainda que irá preparar «uma homenagem especial» ao cineasta. «Quando o Fernando Lopes faleceu, o Paulo Rocha, que já estava muito doente, escreveu, pelo seu próprio punho, uma mensagem maravilhosa. Foi a mais comovente de todas», recordou Maria João Seixas sobre a forte ligação dos dois cineastas, emblemáticos representantes do cinema português.

Também o secretário de Estado da Cultura, Jorge Barreto Xavier, lamentou a morte de Paulo Rocha, sublinhando que «deixa um grande vazio no cinema português». Num comunicado enviado à agência Lusa pela Secretaria de Estado da Cultura (SEC), o governante destaca que o cineasta «realizou algumas das mais importantes obras do cinema português», e que a sua obra «irá continuar a marcar o trabalho de outros realizadores» do presente e do futuro.

Margarida Gil, presidente da Associação Portuguesa de Realizadores (APR), lamentou o sucedido e comparou o ano de 2012 a «um vendaval» no setor do cinema, com o desaparecimento, em maio, do cineasta Fernando Lopes, aos 76 anos, e hoje de Paulo Rocha. «Sentimos que o cinema em Portugal está muito frágil, vulnerável, por várias razões, e a perda destas pessoas insubstituíveis, é como uma casa perder os seus pilares», afirmou a realizadora.

«Conheci-o muito bem e foi dos realizadores que mais gostei. Estava sempre pronto a apoiar os outros e tinha uma predileção especial por tudo o que não fosse voz corrente», recordou Margarida Gil, referindo-se a Paulo Rocha. Recorda-o ainda como «um realizador com um gosto muito seguro, um saber muito sólido sobre o cinema, um apaixonado, um solitário e divagador».

Por seu turno, a produtora portuense Helastre destaca a «irredutível originalidade» e o «terno fascínio no modo de retratar os humanos e as suas paixões». Também a «luminosa complexidade» das matérias e formas da obra do realizador e a forma «peculiar» como o seu trabalho «se inscrevem nos tempos históricos e políticos que atravessou» são salientados no comunicado enviado à Lusa pela Helastre – Produções Artísticas e de Espetáculos, de Regina Guimarães e Saguenail.

Os filmes de Paulo Rocha contaram com a colaboração de «relevantes artistas seus contemporâneos», como António Reis, Carlos Paredes, Jorge Silva Melo, Luís Miguel Cintra e Luíza Neto Jorge, bem como com «talentosos diretores da fotografia» como Elso Roque e Acácio de Almeida, acrescenta o comunicado da produtora.

Comentários