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Cinemateca Júnior celebra dez anos a mostrar magia do cinema aos mais pequenos

O que é um zootrópio, para que serve um 'storyboard' e como funciona uma lanterna mágica são perguntas que podem ser respondidas, a crianças e adultos, pela Cinemateca Júnior, a celebrar dez anos de atividade.

A funcionar desde abril de 2017, no Palácio Foz, em Lisboa, a Cinemateca Júnior desdobra-se em ateliers, oficinas de cinema e imagem em movimento, sessões de cinema e visitas guiadas para escolas e famílias, em torno da história da sétima arte.

A ideia é "pÔr os miúdos a pensar o que é o museu do cinema e o que é a história do cinema, uma imagem, um filme; como se aprende a ver o filme e a despertar o desejo e a paciência de saber ver, olhar para um filme", afirmou à agência Lusa a programadora Neva Cerantola, que está ligada à Cinemateca Júnior desde a génese.

Durante a semana - e também nas férias escolares, com as da Páscoa que estão a chegar ao fim -, a Cinemateca Júnior acolhe grupos de crianças e jovens para diferentes oficinas, que ensinam, por exemplo, o bê-a-bá da escrita e realização de um filme. E os espaços do Palácio Foz servem de cenário para por a imaginação à prova.

"Estamos a ter uma oficina sobre filmes e realização. Estou a gostar muito porque sempre achei interessante mexer nas câmaras e gravar coisas e então é a oficina perfeita para mim. Já vimos filmes, já tivemos a fazer um filme cada um de nós e agora estamos a fazer um filme em conjunto", disse Gaspar, de 11 anos, à agência Lusa, depois de ter sido interrompido numa oficina na qual era o realizador.

Para Neva Cerantola, o que mais a surpreende nesta década de trabalho é a reação de quem vê pela primeira vez cinema numa sala como a do Palácio Foz, com mais de 50 anos, e depois tem oportunidade de ficar a falar ou a desenhar sobre o filme que viu.

"Eu acho que há muitos pais que escolhem a Cinemateca Júnior por ser um espaço diferente de outras propostas que há na cidade; podem ter acesso a objetos, conversar, sem ter outras distrações. Isto tem outro tempo. Tudo isto é um bocadinho diferente. É um cantinho especial que se encontra na cidade", disse Neva Cerantola.

A programação que celebra os dez anos da Cinemateca Júnior decorre durante o mês de abril, mas terá especial destaque no sábado, dia 22, um dia de portas abertas, com entrada gratuita.

No âmbito das celebrações, está ainda previsto, na sede da Cinemateca, um encontro dedicado às múltiplas vertentes da relação entre o cinema e a educação.

Dez anos a provar "um imenso potencial"

A Cinemateca Júnior provou que tem um "imenso potencial de trabalho" com as escolas e as famílias, mas sofre de limitações estruturais, disse o diretor da Cinemateca, José Manuel Costa.

Em entrevista a propósito da primeira década de vida da Cinemateca Júnior, José Manuel Costa afirmou que a expectativa sobre a atividade deste serviço da Cinemateca Portuguesa "foi mais do que superada e agora o trabalho é crescer".

"Este espaço é absolutamente essencial. Nós tínhamos a perceção disso (...). Aqui trata-se de pensar especificamente o que fazer com camadas etárias que hoje em dia estão afastadas do cinema", sublinhou o diretor.

A atividade da Cinemateca Júnior, sediada no Palácio Foz, em Lisboa, arrancou a 20 de abril de 2007, com uma linha programática pensada para públicos mais novos, com oficinas, uma exposição e exibições, com o cinema e a imagem em movimento como pontos de partidas.

Para José Manuel Costa, o trabalho de formação de públicos é essencial na Cinemateca Júnior, até porque muitas crianças e jovens desconhecem as mais antigas formas de criação e visualização de cinema, mas aquela missão é transversal a toda a Cinemateca.

"A Cinemateca como museu é ainda um espaço a descobrir por grande parte da população portuguesa, apesar de estar implantadíssima há muitas décadas. Toda a nossa atividade em geral é pedagógica e toda a nossa atividade é feita no sentido da formação de novos públicos", disse.

José Manuel Costa defende o crescimento do trabalho da Cinemateca Júnior, mas alerta para as "carências estruturais muito grandes" da Cinemateca, que sofreu cortes orçamentais, entre os 35 e os 40 por cento, comparando com a década anterior.

"É preciso crescer em todos os sentidos, que passam por equipamento mais completo, equipamento melhor em alguns setores - porque há carências estruturais de equipamento -, equipas de trabalho. Todo o enquadramento funcional da [Cinemateca] Júnior está muito coartado pelas limitações em que estamos a trabalhar", lamentou.

A Cinemateca Portuguesa foi fundada na década de 1950 e tem como missão salvaguardar e divulgar o património cinematográfico português, sejam filmes, equipamentos, objetos, livros, cartazes ou fotografias.

Em termos de equipamentos, a Cinemateca é composta pela Cinemateca Júnior no Palácio Foz, pela sede noutro edifício na capital, onde funciona a programação regular de cinema, e o Arquivo Nacional das Imagens em Movimento (ANIM), em Loures, com cofres, depósitos climatizados e um laboratório.

Apesar dos constrangimentos, José Manuel Costa recorda que a Cinemateca está a trabalhar, a longo prazo, nas bases de um Museu do Cinema que reúna todas as valências de preservação, exposição e divulgação.

"O que estamos a fazer é pensar o que será o museu em Portugal. (...) Criámos há muito tempo um projeto de uma terceira vertente, um museu num sentido mais abrangente. Um museu necessitará de um espaço que tenha uma sala de cinema, ligando à experiência do cinema e projeção, com espaços alargados para exibir o conjunto das coleções. (...)Precisamos de melhores condições para fazer o que estamos a fazer aqui", disse.

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