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Clint Eastwood: os 85 anos da lenda que se confunde com a América

De «fascista» de pistola em punho a «autor» consagrado com Óscares, recordamos todas as imagens da estrela que soube, como poucas, encarnar a complexidade do espírito americano.



2015 é um ano especial para Clint Eastwood.

Nascido a 31 de maio de 1930, celebra 85 anos. Por outro lado, o seu primeiro filme, «A Vingança do Monstro» foi em 1955, pelo que está a fazer 60 anos de uma carreira que, em 2015, viu surgir o seu maior sucesso comercial de sempre: «Sniper Americano».

Com o seu aspecto e 1m93, poder-se-ia pensar que teve o caminho facilitado em Hollywood, o que não foi o caso: antes de ser o «Homem Sem Nome» ou «Dirty Harry» ou até de ganhar popularidade com a série «Rawhide» em 1959, foi o «primeiro saxão» (não creditado com o nome na ficha técnica) em «Lady Godiva» ou o «chefe do esquadrão de jato» (não creditado) em «Tarântula, a Aranha Gigante» (55). E mais tarde, antes de ser «autor» devidamente elogiado pela crítica e consagrado pelos Óscares, era o «brutamontes» e «fascista».

Nos primeiros anos de carreira, ocupava o tempo a ver filmes estrangeiros num cinema em Western Ave. (Los Angeles), o que acabou por se revelar uma ocupação feliz: quando alguém lhe perguntou se queria ir a Itália fazer um «western», que se sabia ter sido desprezado por vários atores de Hollywood, começou por recusar porque queria tirar férias, mas quando leu o argumento de «The Magnificent Stranger», reconheceu nele «Yojimbo, o Invencível» (61), realizado por Akira Kurosawa, o seu filme preferido na época.

Foi o momento decisivo: o título foi alterado mais tarde para «Por Um Punhado de Dólares» (64) e o realizador era Sergio Leone. Sucederam-se «Por Mais Alguns Dólares» (65) e «O Bom, o Mau e o Vilão» (66) e quando regressou a casa já era uma vedeta e o estatuto foi confirmado com o primeiro filme rodado nos EUA, «À Sombra da Forca» (68).

Nos anos seguintes, fez «westerns», filmes de guerra, policiais e até o musical «Os Maridos de Elizabeth» (69), mas decisivo foi «A Pele de Um Malandro» (1968), onde encontrou o realizador Don Siegel, que ajudou a evoluir a sua «personna» cinematográfica em títulos como «Os Abutres Têm Fome» (70), «Ritual de Guerra» (71) e principalmente «A Fúria da Razão» (71), onde se dá o encontro com a personagem de «Dirty Harry» e as acusações de fascismo.

Foi ainda em 1971 que se estreou na realização com o muito elogiado «thriller» «Destinos nas Trevas» e a partir daí faz uma gestão criteriosa da intensa carreira, conciliando várias vezes no mesmo ano títulos mais comerciais com a realização dos projetos mais pessoais através da sua produtora Malpaso.

Desse período ficaram filmes da dimensão de «O Pistoleiro do Diabo» (73), «O Rebelde do Kansas» (76), «B ronco Billy, o Aventureiro» (80), «A Última Canção» (82), «O Justiceiro Solitário» (85), « Bird - Fim do Sonho» (88) e «Caçador Branco, Coração Negro» (90), que o levaram a ganhar estatuto de «autor» na Europa, principalmente graças aos franceses. E quando estreou «Imperdoável» em 1992, foi a vez dos americanos...

Desde então, sempre mestre na gestão da imagem, soube reconhecer a passagem dos anos com a personagem de um envelhecido agente dos serviços secretos em «Na Linha de Fogo» (93), arriscando ao mesmo tempo um maduro papel romântico em «As Pontes de Madison County» (95).

Já no século XXI, concentrou-se principalmente no trabalho atrás das câmaras, de que resultaram filmes como «Mystic River» (03), «Million Dollar Baby - Sonhos Vencidos» (04), que lhe valeu novos Óscares, ou «Cartas de Iwo Jima» (06), mas como mostram «Gran Torino» (08) e «Sniper Americano» (14), Clint Eastwood continua a saber representar no grande ecrã, como poucos, o espírito em que os americanos mais gostam de se reconhecer.

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