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Documentário tenta resgatar realizador António de Macedo da sombra da memória

Um trabalho de serviço público, de resgate da memória, é como João Monteiro define o documentário «Nos Interstícios da Realidade», que está a finalizar, sobre o realizador António de Macedo, um dos nomes do Cinema Novo Português.

O realizador conseguiu esta semana cerca de 3.500 euros de apoio financeiro, através do processo de «crowdfunding», que permitirão concluir o documentário sobre o cineasta português, atualmente com 82 anos. «António de Macedo é um dos maiores fenómenos do cinema português, foi uma das figuras fundamentais do Cinema Novo Português e não existe, por exemplo, nada dele em DVD», afirmou João Monteiro à agência Lusa.

Grande parte do filme está feita, restando agora o trabalho de arquivo, na RTP e na Cinemateca, para juntar aos vários depoimentos - incluíndo de António de Macedo - já recolhidos por João Monteiro.

O realizador explicou que «Nos Interstícios da Realidade» contará «a história de António de Macedo de uma forma cronológica diversa», focando-se «na obra-prima que é «Domingo à Tarde»», primeira longa-metragem do cineasta, de 1965.

Com formação em arquitetura, António de Macedo filmou entre as décadas de 1960 e 1990, deixando cerca de uma dezena de longas-metragens e quase meia centena de curtas-metragens, com um pendor experimental e contra-corrente com o que vigorava no cinema.

«Foi o primeiro a ir a Veneza, o primeiro a estar em Cannes, o primeiro a filmar um nu integral, a usar jazz e eletrónica; é o único cineasta com obra contínua no campo do fantástico e ninguém sabe, ninguém se lembra», afirmou João Monteiro. O realizador considera que devia haver mais filmes que preservem a memória, para que se recupere «a ligação do cinema português com as novas gerações».

António de Macedo, escritor e professor universitário, adaptou para cinema o romance «Domingo à Tarde», de Fernando Namora, a peça «A Promessa», de Bernardo Santareno, foi censurado em ditadura e em democracia, causou polémica com «As Horas de Maria», desafiando a Igreja Católica, e fez a última longa-metragem, «Chá Forte com Limão», em 1993.

Foi distinguido pela Sociedade Portuguesa de Autores, pelo Fantasporto e pelos prémios Sophia, teve uma retrospetiva há dois anos na Cinemateca, mas, segundo João Monteiro, o seu cinema continua pouco acessível para os espetadores portugueses.

«Nos Interstícios da Realidade» conta com depoimentos de críticos de cinema, «pró e contra o cinema de António de Macedo», de realizadores como Alberto Seixas Santos, Fernando Lopes, José Fonseca e Costa, João Salaviza e Susana Sousa Dias, filha do cineasta. O documentário deverá estar concluído no final do ano.

João Monteiro, nascido em Lisboa em 1977, é licenciado em História de Arte, foi um dos fundadores do Cineclube de Terror de Lisboa e do festival Motelx.

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