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«Enquanto Somos Jovens» é desvio perdido do tom

Ben Stiller, Naomi Watts, Adam Driver e Amanda Seyfried têm interpretações exemplares, mas esperava-se mais do filme de Noah Baumbach.

«Enquanto Somos Jovens» tenta muito, mas consegue pouco. Partindo de uma premissa sagaz, a concretização acaba por não corresponder, resultando numa obra algo maçuda apesar das interpretações exemplares.

Cornelia (Naomi Watts) e Josh (Ben Stiller) são um casal (relativamente) feliz em Nova Iorque e (relativamente) bem resolvido com a sua vida atual. Josh é um documentarista que não consegue largar uma obra de há já alguns anos, vivendo um momento de pleno bloqueio, criativo e também financeiro. Já Cornelia é produtora e filha de um renomado documentarista, com quem Josh (já) não se relaciona muito bem.

A vida deste casal muda por completo com a entrada nas suas vidas de um outro casal, na flor da idade, composto por Jamie (Adam Driver) e Darby (Amanda Seyfried). A inquietude provocada por este casal libertador e sem regras revoluciona a vida de Cornelia e Josh, servindo como o motivo perfeito para repensarem a sua relação e projetos para o futuro.

O que começa por ser uma profícua reflexão sobre a simbiose entre juventude e maturidade e os aspetos negativos e positivos de ambos acaba por tomar outro percurso, mais fácil e menos profundo. A juventude acaba por ser retratada como algo puramente negativo, quase independentemente do caráter individual de cada um, numa generalização algo precipitada e com pouco sentido. Noah Baumbach tem, assim, uma faceta menos bem conseguida enquanto argumentista da obra, mas mais relevante na cadeira de realização, apesar de talvez se esperar mais.

O elenco é composto por nomes já reconhecidos e que não falham na composição das personagens. Ben Stiller é um deles, assumindo, mais uma vez, a tarefa de participar em menos filmes puramente cómicos. Ao seu lado, destaca-se uma atriz que poucas vezes não brilha, Naomi Watts, que consegue uma interpretação ora divertida ora perspicaz.

Todavia, as personagens mais cativantes e mais bem desenvolvidas estão entregues aos dois “novatos” da história: Adam Driver, um dos novos atores coqueluche do Cinema atual e cuja presença magnetizante é a principal âncora da obra, e Amanda Seyfried, que há muito que já não tem um papel em que possa mostrar verdadeiramente o seu talento.

«Enquanto Somos Jovens» é um caso de uma boa ideia que acaba por não ser abordada com a mesma desenvoltura. Falta-lhe alguma chama, imparcialidade e inspiração. Não obstante, há momentos deveras interessantes e que decerto farão o espetador rever-se e, consequentemente, criar alguma empatia com a obra. E, enquanto somos jovens – o que poderá acontecer durante a vida toda – (quase) tudo é possível…


TATIANA HENRIQUES
2 em 5
REVISTA METROPOLIS

Artigo do parceiro

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