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Festival Muvi abre com filme sobre Os Cariocas e o Brasil recente

Um país em retrocesso, corrupto e com falhas na educação surge retratado em “Eu, meu pai e Os Cariocas”, de Lúcia Veríssimo.

Um país em retrocesso, corrupto e com falhas na educação, é assim que a realizadora Lúcia Veríssimo vê hoje o Brasil, como descreveu à Lusa, dias antes de apresentar em Lisboa o filme “Eu, meu pai e Os Cariocas”.

O documentário, que abre na quarta-feira o Muvi – Festival Internacional de Música no Cinema, conta a história de Os Cariocas, um grupo vocal histórico da música popular brasileira, e de um dos fundadores, o maestro Severino Filho, pai da realizadora, Lúcia Veríssimo.

À boleia da vida do grupo, criado em 1942, e em particular do pai, Lúcia Veríssimo recupera ainda a história da rádio nacional brasileira e regista as mudanças políticas no Brasil, ao longo dos últimos 70 anos.

Citando uma frase de Tom Jobim, “toda a música é o reflexo da sua época”, Lúcia Veríssimo recorda diferentes momentos da política, a partir de seus governantes, desde Getúlio Vargas até aos dias de hoje.

A par dos depoimentos do próprio Severino Filho, entram no filme nomes como Badeco, outro dos fundadores de Os Cariocas, Chico Buarque, Caetano Veloso, Gilberto Gil, Milton Nascimento, João Donato, Marcos Valle, Gal Costa e Roberto Menescal.

Severino Filho morreu em 2016, pouco depois de Lúcia Veríssimo ter terminado a rodagem, mas a montagem do documentário só ficou concluída este ano.

Por causa do filme, Lúcia Veríssimo reviu o passado e voltou a olhar para o presente.

“O pior problema que o Brasil enfrenta é a total falta de educação. É um povo que não teve acesso à educação, não só tem a ignorância pela educação como tem uma forte influência religiosa absurda, que faz uma lavagem cerebral nas pessoas. E fora isso tudo, governantes que há anos estão completamente afundados na corrupção. É uma coisa absurda. O país está devastado completamente”, lamentou.

A realizadora, cujo percurso passou sobretudo pela representação em telenovelas e em teatro, mas também pela participação na política – fez parte do Partido Verde -, fala num país em retrocesso e pondera emigrar.

“Não suporto mais ver o meu país nessa forma. (…) Estou direcionando a minha vida para a direção e para escrever e isso posso fazer em qualquer parte do mundo, mas tenho uma preferência com Portugal”, disse.

“Eu, meu pai e Os Cariocas” é o primeiro filme de Lúcia Veríssimo e abrirá o Muvi, no cinema São Jorge, com a presença da realizadora.

A quarta edição do Muvi cumpre-se entre os próximos dias 15 e 20, no cinema São Jorge, com cerca de 200 filmes, três exposições, seis concertos de música portuguesa, um cine-concerto solidário e conversas com o público.

O encerramento será com "Living on soul", de Cory Bailey e Jeff Broadway, que regista, no Apollo Theater, em Nova Iorque, várias atuações de artistas ligados à Daptone Records, entre os quais Sharon Jones e Charles Bradley, recentemente falecidos.

A programação reparte-se por várias secções competitivas - longas, curtas-metragens e vídeos musicais portugueses e estrangeiros.

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