Um filme que imagina uma segunda guerra civil num futuro próximo nos EUA reavivou os temores sobre a divisão do país antes das presidenciais de novembro.

"Guerra Civil", que estreou no Festival SXSW na semana passada e chegará aos cinemas portugueses a 18 de abril, retrata um presidente de três mandatos - um além do permitido - em Washington a lutar contra forças separatistas da Califórnia e Texas.

O filme acompanha jornalistas (vividos pela norte-americana Kirsten Dunst e o brasileiro Wagner Moura) que percorrem uma nação destruída, onde o FBI foi dissolvido e drones das forças armadas lançam ataques contra os civis.

Nas primeiras críticas, o The Atlantic destacou que o filme tem uma "ressonância incómoda nestes tempos politicamente polarizados". Rolling Stone disse que "poderia ser acidentalmente confundido com o presente".

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Mas qual a possibilidade desde cenário?

Donald Trump foi criticado recentemente por fazer piada sobre ser "ditador" desde "o primeiro dia" se vencer as eleições e regressar à Casa Branca. O ex-presidente enfrenta acusações de conspirar para anular os resultados das eleições de 2020, quando perdeu para o democrata Joe Biden.

Biden, que procura a reeleição, acusou o seu antecessor de abraçar a "violência política".

Uma sondagem do Public Religion Research Institute (PRRI) do ano passado revelou que 23% dos americanos concordam que "os verdadeiros patriotas podem recorrer à violência para salvar o país".

As elites políticas e o Congresso estão mais divididos do que nunca, mas a polarização entre os cidadãos é "superdimensionada", diz William Howell, professor de Ciências Políticas na Universidade de Chicago.

As respostas a perguntas vagas nas sondagens não refletem necessariamente a realidade sobre como as pessoas se comportarão, afirmou.

"Não acredito que estejamos a um passo de uma guerra civil", disse.

"Horrível"

Já o autor Stephen Marche acredita que os "EUA são um estudo do caso de um país que caminha para uma guerra civil", mas não como mostra o filme.

O livro de Marche, "The Next Civil War: Dispatches from the American Future" ('A Próxima Guerra Civil: Despachos do Futuro Americano', em tradução livre), utiliza modelos de Ciência Política para sugerir cinco cenários que poderiam desencadear um conflito interno generalizado. Por exemplo, o confronto de milícias antigovernamentais com as forças federais e o assassinato de um presidente.

A violência política "torna-se aceitável e, em certo sentido, inevitável, porque as pessoas não sentem que o seu governo é legítimo e parece que, por isso, a violência é a única resposta", afirma Marche.

"Diria que, de certa forma, isso já ocorreu nos EUA", nota.

No livro de Marche, o coronel reformado do Exército Peter Mansoor afirma que um novo conflito "não seria como a primeira Guerra Civil, com exércitos manobrando no campo de batalha".

"Acredito que seria uma batalha campal, de vizinho contra vizinho, baseada em crenças, cor da pele e religião. E seria horrível", relata.

"Falhas e pressões"

No filme, o realizador Alex Garland alude de forma deliberada às origens concretas do conflito e afirma que pretende ser "uma conversa" sobre polarização e populismo.

"Não precisamos que nos expliquem: sabemos exatamente porque pode ocorrer, sabemos exatamente quais são as falhas e pressões", disse Garland durante a estreia no Texas na semana passada.

O "presidente de três mandatos" do filme parece invocar os temores de muitos americanos de que Trump, se reeleito, tente desprezar o prazo máximo de dois períodos presidenciais e queira procurar um terceiro.

"É difícil pensar o contrário, se considerarmos as suas palavras, e acredito que nos equivocaríamos se não o fizéssemos", diz Howell.

Se chegar a este cenário, segundo Marche, falar numa guerra civil poderá ser redundante.

"Se houvesse um presidente com três mandatos, os EUA estariam acabados. Deixariam de haver EUA", diz.