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João Botelho recria o Ramalhete de «Os Maias» em antigo palácio lisboeta

Um antigo palácio lisboeta do século XIX foi transformado, nos últimos dias, no Ramalhete, a casa da família Maia, protagonista do romance «Os Maias», de Eça de Queirós, e da longa-metragem homónima, que João Botelho está a realizar.

É nesse palácio que tem decorrido parte da rodagem de «Os Maias - Alguns episódios da vida romântica», onde João Botelho utilizou a decoração e mobiliário da antiga casa de Veva de Lima para recriar a residência Ramalhete. Numa pequena divisão, rodeado pela equipa técnica, João Botelho prepara uma das cenas do filme e é rigoroso nas indicações dadas ao ator Pedro Inês, no papel de João da Ega.

Depois de algumas repetições, num cenário escuro e com escassos focos de luz - quase como uma pintura barroca -, João Botelho grita «perfeito» e a equipa desmonta o equipamento, arrasta mobílias, afina holofotes e segue para a montagem de outra cena.

Depois de ter adaptado «Livro do Desassossego», de Fernando Pessoa, João Botelho voltou a entrar na literatura portuguesa, pegando num dos romances mais conhecidos de Eça de Queirós. «Apeteceu-me fazer «Os Maias», porque é um grande texto, é atual. Os políticos são os mesmos, as situações são parecidas, os discursos são os mesmos, os portugueses são iguais», afirmou o realizador à agência Lusa.

João Botelho transpôs o texto original de Eça de Queirós, mas acrescentou-lhe uma vertente próxima da ópera, porque os exteriores serão todos filmados em estúdio, com recursos a telas gigantes, pintadas por João Queiroz, que recriarão algumas ruas em Lisboa, em particular o Chiado.

As cenas de interiores têm sido gravadas em palacetes e edifícios em Ponte de Lima, Cabeceiro de Basto e agora em Lisboa, no palácio onde viveu Veva de Lima, filha de Carlos Mayer, um dos «Vencidos da Vida», o grupo de intelectuais do qual também fez parte Eça de Queirós. Para João Botelho, o cinema é «tentar jogar com o claro e o escuro» e filmar um ponto de vista.

«É um cinema em que não temos muito dinheiro, mas temos tempo. Implica composição. Não somos muito bons na ação, mas somos melhores na composição. É esse espírito que tem atravessado este filme», disse.

Dois dos protagonistas do filme são os atores Graciano Dias, como Carlos da Maia, e Pedro Inês, que encarna a personagem João da Ega, na sua estreia no cinema português.

Do elenco fazem ainda parte João Perry, a atriz brasileira Maria Flor, Maria João Pinho, Adriano Luz, Ana Moreira, Catarina Wallenstein, Rita Blanco, Hugo Mestre Amaro, Pedro Lacerda e o barítono Jorge Vaz de Carvalho, que fará a voz de Eça de Queirós, o narrador.

Graciano Dias, que já tinha trabalhado com João Botelho, afirmou à Lusa que sente a responsabilidade do primeiro grande papel de protagonista no cinema: A rodagem «é cheia de surpresas todos os dias, eu tenho cerca de 89 cenas, já estou a um ritmo quase de dormência, mas estou a adorar».

Para o ator, o texto de Eça de Queirós continua bastante atual, com personagens (boémias, corruptas, ignorantes ou interesseiras), cujas características ainda se encontram por aí, disse.

Pedro Inês, com formação em dança clássica contemporânea, estreia-se no cinema com João Botelho, «muito rigoroso em relação ao gesto e ao espaço»: «O ator tem de sobrevier entre aquela moldura de luz e de sombra», marca característica do cinema de João Botelho.

Nas próximas semanas, a rodagem da longa-metragem transitará para um armazém gigante, onde estão a ser instalados os telões pintados por João Queiroz. O filme, com orçamento de 1,5 milhões de euros, tem apoio financeiro do Instituto do Cinema e Audiovisual, da RTP, da autarquia de Lisboa, do Montepio e do Brasil, país co-produtor, estrear-se-á no circuito comercial em setembro de 2014.

Será também exibido em itinerância pelos auditórios municipais do país, com incidência junto do público estudantil: «É serviço público. Se recebo dinheiros públicos, tenho que fazer serviço público», disse o realizador à Lusa.

«Os Maias» terá ainda uma versão em série televisiva, a exibir na RTP, e estreia garantida no Brasil.

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