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Lenda da animação japonesa dá uma reviravolta nos filmes de princesas

Aos 78 anos, Isao Takahata não dá sinais de paragem: o autor de séries como «Heidi» e filmes como «O Túmulo dos Pirilampos», acaba de apresentar no Festival de Animação de Annecy o seu novo trabalho, «The Tale of the Princess Kaguya».

Com 78 anos de vida e 55 de carreira, Isao Takahata tornou-se uma lenda viva da animação. Isso mesmo o comprovou a presença do cineasta no Festival Internacional do Filme de Animação de Annecy, a decorrer até final da semana, onde foi recebido com um estrondoso aplauso quando entrou na sala pare receber o prémio de carreira e apresentar o seu mais recente filme, «The Tale of the Princess Kaguya».

A sua presença tem atraído muitos fãs ao festival, que se têm acumulado nos espaços onde sabem que o cineasta irá estar, nomeadamente numa muito ansiada «masterclass», cujos bilhetes esgotaram muito mais depressa que os das apresentações da Pixar, da Disney e da DreamWorks.

A razão do fenómeno está não só na qualidade como também na transversalidade da obra de Takahata. Co-fundador do Studio Ghibli com Hayo Miyazaki, o realizador marcou gerações com os seus trabalhos para a televisão, nomeadamente como autor das séries «Heidi», «Marco - Dos Apeninos aos Andes» e «Ana dos Cabelos Ruivos», e recebeu todos os elogios no cinema, com filmes incontornáveis como «Hols - O Príncipe do Sol», «Only Yesterday», «Pom Poko» e, principalmente, a obra-prima «O Túmulo dos Pirilampos».

A sua mais recente longa-metragem, «The Tale of the Princess Kaguya», levou oito anos a produzir e apresenta um novo olhar sobre a história da Princesa Kaguya, figura muito popular do folclore japonês, uma menina que nasceu numa vara de bambu e é criada por um modesto casal de camponeses, que a educam para ser uma princesa, longe de saber que ela veio da lua e, mais tarde ou mais cedo, deverá para lá voltar.

Takahata assumiu que este foi o projeto mais difícil da sua carreira, que o obrigou a uma gestação invulgarmente longa, principalmente para a rapidez habitual nas produções animadas nipónicas. A ideia surgiu-lhe mesmo no início da carreira, há mais de cinco décadas, mas só agora ele conseguiu contar a sua versão da história, preenchendo as lacunas do conto original, nomeadamente sobre as origens e a personalidade da princesa.

Mesmo aos 78 anos, Takahata não cessa de surpreender. Neste novo filme, em vez de aproveitar a máquina de produção bem oleada do Studio Ghibli, o realizador resolveu inovar, com um estilo de animação fora das regras habituais, em que os fundos e as personagens fazem todos parte do mesmo plano, o que dificulta e prolonga de tal forma o trabalho que o estúdio se viu forçado a alojar a produção num novo espaço, a alguns minutos do edifício principal.

O resultado é visualmente muito arrojado, em sintonia com uma história sensível e cheia de subtilezas, entre a dor contida e a alegria transbordante, que apresenta um novo olhar sobre um conto secular e uma nova abordagem sobre o «filme de princesas», tão caro à animação ocidental. Se vier a ser esta a última película de Isao Takahata, que regressou da reforma para a fazer, será uma despedida em beleza.

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