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Longas-metragens animadas de todo o mundo aterram em Annecy

Da Índia ao Brasil, da África do Sul à Itália, o Festival Internacional de Animação de Annecy comprovou que a produção de longas-metragens animadas de qualidade não se esgota nos EUA e no Japão.

Na competição oficial de longas-metragens do Festival Internacional de Animação de Annecy, nove filmes competem pelo prémio principal, incluindo alguns de países geralmente tão arredados destas andanças como a Índia, o Brasil ou a África do Sul.

Um dos melhores filmes da seleção é o francês «Ma maman est en Amérique, elle a rencontré Buffalo Bill», que Marc Boréal e Thibaut Chatel adaptaram da BD homónima de Jean Régnaud e Émile Bravo. Trata-se de uma memória de infância sobre as vivências de uma criança a entrar no ciclo preparatório e a ter de lidar com a ausência da mãe e o afastamento do pai, numa fita muito tocante e sensível, com uma definição exemplar de personagens.



A Índia estreou-se nesta competição de longas-metragens com o espetacular «Arjun: The Warrior Prince», um verdadeiro épico baseado no seminal «Mahabharata», realizado por Arnab Chaudhuri e co-produzido pela Disney. A história do príncipe Arjun é visualmente grandiosa e opulenta, e marca um primeiro patamar de excelência na animação indiana.



Da Espanha, veio o galego «O Apóstolo», de Fernando Cortizo, que já tinha sido visto em Portugal no Fantasporto e na Monstra, uma atmosférica história de terror em excelente «stop-motion», com um presidiário em busca de um tesouro numa aldeola misteriosa.



O filme mais inesperado terá sido o francês «Jasmine», de Alain Ughetto, uma fita de recorte autobiográfico animada com figuras em pasta de moldar, sobre a história de amor entre o próprio cineasta e uma namorada iraniana que estudou com ele em França e com quem ele foi mais tarde para o Irão, antes da revolução os separar. É um filme todo construído em metáforas e simbolismos, por vezes excessivamente dramático mas muito tocante.

No extremo oposto está o sul-africano «Khumba», de Anthony Silverston, uma comédia em animação por computador do estúdio Triggerfish, que já assinara o sucesso de «Zambézia», aqui sobre uma zebra que é ostracizada pelo grupo por ter metade do corpo sem riscas. É um filme tecnica e narrativamente muito profissional, a jogar no humor e para o público de todas as idades.



O Brasil também se estreou nesta competição com «Uma História de Amor e Fúria», de Luiz Bolognesi, um filme ambicioso com um protagonista que abarca 600 anos de história do Brasil, que arranca no século XVI como índio tupi e ressurge em forma humana no século XIX, na década de 70 do século XX e em 2096, sempre do lado desfavorecido da História e sempre a tentar reencontrar o amor da sua vida. O filme tem alguns desequilibrios mas é muito interessante, e comprova que o Brasil também está a querer dar cartas na arena da animação.



Do Japão, surgiu o segundo filme da trilogia «Berserk Golden Age», assinado por Toshiyuki Kubooka a partir da BD de Kentaro Miura. A história de capa e espada centra-se nos conflitos armados de um bando de mercenários, numa fita cheia de sangue, sentimentos ao rubro e até algum sexo. Narrativamente é muito forte, mas não será para todos os gostos.



Dos EUA, chega o filme convencional da competição, «Legends of Oz: Dorothy's Return», uma película concebida na América mas animada na Índia. Trata-se de uma sequela de «O Feiticeiro de Oz», com Dorothy a regressar a um Kansas devastado pelo ciclone e a seguir a voltar a uma Oz em grande perigo. Com Lea Michelle a dar a voz a Dorothy e várias estrelas no elenco vocal, trata-se de uma película musical de animação por computador, fraca na animação da protagonista mas sólida na dos ambientes e das personagens mais caricaturais.



Finalmente, da Itália, chega uma ótima versão de «Pinóquio», muito mais fiel ao livro original de Carlo Collodi do que é habitual, que tem no grafismo de cores quentes de Lorenzo Mattotti a sua maior valia. O realizador é o napolitano Enzo D'Alò.

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