Artigo

Maria Teresa Horta foi pioneira dos cineclubes e elogia reabertura do Cinema Ideal

A escritora Maria Teresa Horta, primeira diretora de um cineclube em Portugal, no final dos anos 1950, sublinhou a importância da reabertura do Cinema Ideal, em Lisboa, como exemplo de um projeto que "faz avançar o país".

A autora foi convidada para apresentar o seu testemunho no lançamento da obra "O Cinema Ideal e a Casa da Imprensa - 110 anos de filmes", de Maria do Carmo Piçarra, previsto para segunda-feira, em Lisboa.

Na mesma altura, será apresentado o projeto e programação do Cinema Ideal, que a Casa da Imprensa, proprietária do edifício, resolveu recuperar para abrir em setembro.

"Fui convidada a estar presente no lançamento do livro, para dar o meu depoimento como primeira mulher diretora de um cineclube em Portugal", disse à agência Lusa Maria Teresa Horta, recordando que teve de esperar pela maioridade para assumir o cargo.

Com apenas 18 anos, a escritora, que já era cineclubista, tornou-se diretora do ABC Cineclube, em Lisboa, no final dos anos 1950, um pioneirismo que ficou marcado pela censura: "A primeira iniciativa para um ciclo de cinema foi totalmente censurada pelo SNI", Secretariado Nacional de Informação, organismo de apoio ao regime ditatorial, criado durante o Estado Novo em Portugal.

A escritora relatou que, devido à censura desse ciclo de cinema, teve um encontro com César Moreira Batista, diretor do SNI, que lhe marcaria toda a vida.

"Quando Moreira Batista soube que eu era a diretora do cineclube, disse uma frase que nunca esquecerei e que mostra a mentalidade do regime fascista: 'Pobre país este, onde até as mulheres já são diretoras de cineclubes'".

Maria Teresa Horta acrescentou que, a partir desse encontro, foi perseguida pelo regime como escritora e como jornalista, uma realidade hoje difícil de entender pelas gerações mais jovens, comentou.

"A censura não é uma ficção. Eu, e muitas pessoas, sobretudo os jornalistas, sentimos isso no dia-a-dia", vincou.

Sobre a reabertura do Cinema Ideal, a escritora considerou o projeto "muito interessante" e "um exemplo do que deve ser feito, para o país andar para a frente em tempos de crise".

“Foi um espaço muito importante na história do cinema na cidade”, sublinhou, apontando o papel da Casa da Imprensa na divulgação da sétima arte.

O Cinema Ideal, a primeira sala de cinema de Lisboa, que foi frequentada por marinheiros e operários, palco para a estreia do ator António Silva, de filmes indianos e pornográficos, cumpre 110 anos, este ano, e reabre em setembro.

A sala de cinema nasceu em 1904 e teve várias vidas ao longo de mais de um século. Chamou-se Salão Ideal, Piolho do Loreto (está localizado na rua do Loreto, ao Chiado), Cine Camões e Cine Paraíso.

Nascido num edifício do século XIX, o Ideal reabrirá portas pela mão do produtor Pedro Borges, que pretende recuperar o perfil de sala de cinema de bairro, mas com uma programação centrada no cinema independente.

O novo Cinema Ideal terá cerca de 200 lugares, exibição digital, uma cafetaria e uma livraria.

O livro “O cinema Ideal e a Casa da Imprensa ­– 110 anos de filmes” traça a história do Cinema Ideal, desde 1904, e recupera o percurso da Casa da Imprensa, proprietária do edifício do cinema, e a ligação desta à exibição e divulgação cinematográfica.

A obra tem lançamento marcado para segunda-feira, às 18:30, no salão nobre da Casa da Imprensa, em Lisboa, pelo crítico de cinema Eurico de Barros e pela escritora e pioneira do cineclubismo em Portugal Maria Teresa Horta.

Comentários