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Morreu Mike Nichols, o cronista da nova América

Realizador de «A Primeira Noite» e «Iniciação Carnal», poucos como ele representaram no cinema a América da revolução social e cultural dos anos 60.

Mike Nichols, que fez filmes como «Quem tem Medo de Virginia Woolf?» e «A Primeira Noite», faleceu na quarta-feira à noite aos 83 anos, vítima de paragem cardíaca. Era casado com Diane Sawyer, conhecida jornalista e pivot do canal de televisão ABC, cujo presidente anunciou a notícia.

O realizador estava a preparar um novo projeto para televisão sobre a lendária cantora de ópera Maria Callas.

Detentor de uma carreira magistral que o tornou uma das poucas personalidades do meio artístico a ganhar prémios nas quatro mais importantes artes do entretenimento, o Óscar (cinema), Emmy (televisão), Grammy (música) e Tony (teatro), nasceu Michael Igor Peschkowsky em Berlim, a 6 de novembro de 1931, cidade que abandonou em 1939 com a família devido à guerra para emigrar para os EUA, fixando-se em Nova Iorque.

Começou por ter aulas de representação dramática no Actor´s Studio de Lee Strasberg, mas foi em Chicago que começou a ganhar notoriedade com duetos cómicos criados com Elaine May num clube que rapidamente passaram para a rádio. Seguiram-se digressões pelo país até ao triunfo na Broadway, onde se estrou mais tarde como encenador com a comédia de Neil Simon «Descalços no Parque», premiada com vários Tony. A peça lançou outra carreira, a de Robert Redford, que participaria na versão cinematográfica.

Após colecionar vários triunfos teatrais, chega ao cinema e a estreia não podia ter corrido melhor: a adaptação da peça «Quem Tem Medo de Virginia Woolf?» (1966), em que dirige com pulso de ferro os ferozes Elizabeth Taylor e Richard Burton no seu auge, valeu-lhe uma nomeação para o Óscar de Melhor Realização.

«A Primeira Noite», logo no ano seguinte, com a inesquecível banda sonora de Simon & Garfunkel, vale-lhe finalmente o prémio da Academia (o único da sua carreira) e torna-o um dos realizadores mais importantes de Hollywood, anunciando ao mesmo tempo o tom que vai dominar o cinema norte-americano nos anos 70.

Aparentemente, «The Graduate» era apenas a história de Ben Braddock (Dustin Hoffman), um jovem inexperiente e passivo incentivado a encontrar um emprego, casar e ser igual aos pais, seduzido uma mulher mais velha, a senhora Robinson (Anne Bancroft), mulher do melhor amigo do seu pai, e que acaba por se apaixonar pela sua filha; na verdade, era um retrato do movimento de contracultura que então se vivia, o do confronto entre a América que saiu da Segunda Guerra Mundial e os seus rebeldes filhos.

Noutro dos seus filmes mais importantes, embora um notório fracasso na época, «Artigo 22» (1970), representa o absurdo da guerra, e «Iniciação Carnal», em 1971, a descrição franca da vida sexual de dois amigos (Jack Nicholson e Arthur Garfunkel), confirma-o como cronista de uma América a romper com a moralidade do passado.

Foi o seu período de ouro. No resto da década intercala fracassos no cinema («Operação Golfinho» e «Uma Fortuna Por Água Abaixo») com triunfos nos palcos, recolhendo vários prémios, mas regressa ao grande ecrã em melhor forma com «Reacção em Cadeia» (83). Aí descobre Meryl Streep como a sua atriz de eleição, juntando-a logo a seguir com o seu preferido masculino, Jack Nicholson, em «A Difícil Arte de Amar» (86).

Segue-se um regresso às peças de Neil Simon com «Os Rapazes de Biloxi», arrancando uma das melhores interpretações de Matthew Broderick, mas o seu título mais popular desta época será «Uma Mulher de Sucesso», com o trio formado por Melanie Griffith, Harrison Ford e Sigourney Weaver, a a canção «Let the River Run» de Carly Simon.

Sempre muito seletivo nos projetos e sem nunca estar muito longe do teatro, Mike Nichols nunca perdeu aquela capacidade de ver e compreender as constantes reviravoltas do tempo e mundo em que vivia - e talvez por isso fosse mais apreciado na Europa do que no país que o acolheu -, qualidades que se encontram entre os melhores títulos da fase final da sua carreira: «Casa de Doidas» (96) e principalmente «Escândalos do Candidato» (98), «Anjos na América» (2003, para televisão), «Perto Demais» (04) e «Jogos de Poder» (07), a sua despedida da Sétima Arte.

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