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Morreu o ator e realizador Richard Attenborough

Com uma carreira de 60 anos, recebeu os principais Óscares com «Gandhi» e tornou-se uma figura popular junto do grande público com «Parque Jurássico». Tinha 90 anos.

Eminência do cinema britânico e patrono dos seus artistas, realizador de 12 filmes e ator em 73, Richard Attenborough faleceu este domingo ao início da tarde após uma longa doença, cinco dias antes do que seria o seu 91º aniversário. Em 2008, sofrera uma trombose que o deixara em estado de coma durante vários dias e de que nunca recuperou completamente, ficando confinado a uma cadeira de rodas. Era casado desde 1945 com a atriz Sheila Sim.

Filho de um reitor da Universidade de Cambridge e irmão mais velho de David Attenborough, apresentador emblemático de programas sobre história natural, não prosseguiu os estudos e começou a forjar uma carreira como ator logo com um papel secundário no grande filme-símbolo do esforço de guerra britânico durante a Segunda Guerra Mundial, «Sangue, Suor e Lágrimas» (1942), às ordens de David Lean e Noel Coward.

Durante muitos anos, a sua carreira foi limitada pela aparência muito jovem: quando já tinha 26 anos, interpretava em «Boys in Brown» (49) um adolescente de 13. O melhor título em que conseguiu tirar partido disso foi «Morte em Brighton» (47), onde, como um psicopata, repetindo um papel que fizera nos palcos, arranca uma das melhores interpretações da primeira fase da sua carreira. Antes disso, fora um dos cadetes que esperava tornar-se pilotos da Força Aérea em «Jornada Heróica» (45) e um piloto em «Caso de Vida ou de Morte» (46), um dos melhores filmes da dupla Michael Powell e Emeric Pressburger. Títulos como «Dancing with Crime» (47), «London Belongs to Me» (48) ou «The Guinea Pig» (1948) contribuíram para que fosse votado o sexto ator mais popular das salas de cinema britânicas em 1949.

Trabalhou intensamente nos anos 50, mas a qualidade só chegou com a dupla de realizadores John e Roy Boulting, sendo o auge dessa colaboração «Private's Progress» (1956) e a sua sequela, «Simpático Idiota», que tem um dos melhores trabalhos de Peter Sellers.

Na década seguinte, ao mesmo tempo que se mantém como protagonista em filmes britânicos, afirmando-se como grande ator - destacam-se «Seance on a Wet Afternoon» (64) e «Revolta em Batasi» (1964), ganhando um BAFTA para melhor ator pelo segundo -, surge como secundário de prestígio em projetos dos grandes estúdios de Hollywood que se tornaram clássicos: «A Grande Evasão» (63), que era dominado por Steve McQueen e James Garner, «O Voo da Fénix» (66), onde dava réplica a James Stewart, «Yang-Tsé em Chamas» (66), num reencontro com McQueen, e «O Extravagante Dr. Dolittle» (67), protagonizado por Rex Harrison.

Desgostoso com a qualidade de muitos dos seus filmes nos anos 50 e o estado em geral da indústria cinematográfica britânica, que o levou até a regressar ao Teatro, fundou em 1959 a Beaver Films com o ator que queria ser realizador Bryan Forbes, tornando-se produtor. Sem nunca deixar de trabalhar como ator («O Violador de Rillington», «Brannigan», «O Caso Rosebud», «O Jogador de Xadrez», «O Fator Humano») deu o natural passo seguinte, atrás das câmaras, dez anos mais tarde, com «Viva a Guerra!», prosseguindo com «O Jovem Leão» (72) e «Uma Ponte Longe Demais» (77), um fracasso comercial. Todos tinham em comum uma forte reflexão política e social, bem como um tom épico.

«Magic», em 1978, um «thriller» de terror sobre um ventríloquo (Anthony Hopkins) dominado pelo seu boneco, é uma magnífica exceção justamente celebrado como um dos seus melhores trabalhos, ainda que fosse uma encomenda que aceitou para arranjar financiamento, juntamente com a hipoteca da casa, venda de carros e a penhora de quadros, para um projeto que demorou 20 anos a concretizar: «Gandhi» (82), que, com o «casting» perfeito de Ben Kingsley, tornar-se-ia, com os seus gigantescos oito Óscares, o símbolo consagrado deste seu cinema já na época visto como fora de moda: em vez de efeitos especiais, a cena do funeral terá tido um total de 400 mil figurantes, de acordo com as suas memórias «Entirely Up to You Darling».

Foi o auge de Richard Attenborough. «A Chorus Line» (85), um musical que representou uma mudança de rumo na carreira, foi um grande fracasso artístico e comercial, mas recuperou regressando a temas pessoais com «Grita Liberdade» (87), sobre a vida de um importante ativista anti-apartheid, confirmando algo que sintetizaria numa entrevista em 2003: «Claro que preferia ter coisas boas escritas sobre mim, mas não sou um grande autor, não sou um grande realizador. Sou um bom realizador. Tenho um talento para fazer as pessoas examinar determinadas circunstâncias».

Em 1992, «Chaplin» recebeu muita atenção mediática, mas as opiniões foram más, com exceção das apreciações a Robert Downey Jr. como a lendária figura, que se tornou uma estrela cuja consagração acabou prejudicada por subsequentes problemas pessoais. Curiosamente, foi Chaplin que o despertou para a representação após assistir a «A Quimera do Ouro».

Mais pequeno em escala e muito mais bem sucedido em todos os aspetos foi, no ano seguinte, «Dois Estranhos, Um Destino», com Anthony Hopkins e Debra Winger, mas «Em Amor e em Guerra» (96), com Chris O'Donnell como um jovem Ernest Hemingway e Sandra Bullock no papel da enfermeira por quem o escritor se apaixona, foi um equívoco que mostrou que o seu cinema de raiz clássica estava desfasado no tempo. A carreira nunca recuperou do desastre: só fez mais dois filmes, «Grey Owl - A História de um Guerreiro» (99) e o menor «O Elo do Amor» (2007), não conseguindo avançar por motivos de saúde com «Silver Ghost», um projeto desenvolvido com Martin Scorsese e Anthony Haas sobre o nascimento da Rolls Royce.

Ironicamente, juntou o reconhecimento e o respeito à popularidade quando não resiste ao convite de Steven Spielberg e volta a trabalhar como ator ao fim de 14 anos: o papel de John Hammond, um homem que se propõe recuperar espécies pré-históricas para criar um parque temático, torna-o para sempre uma figura acarinhada pelo grande público. O filme foi, claro, «Parque Jurássico» (93).


Nuno Antunes

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