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Morreu um dos grandes ícones do cinema francês, Alain Resnais

O cineasta francês Alain Resnais, autor do clássico dos anos 60 «Hiroshima Meu Amor», morreu sábado à noite em Paris, anunciou o produtor dos seus últimos filmes, Jean-Louis Livi.

O realizador, que faleceu aos 91 anos, tinha sido homenageado em fevereiro na 64ª edição do Festival de Berlim, onde estreou o seu último filme, «Aimer, Boire et Chanter», baseado na peça «Life of Riley», de Alan Ayckbourque, em que dirigiu mais uma vez André Dussolier e a sua esposa Sabine Azéma.

Autor de clássicos dos anos 60 como «Hiroshima Meu Amor» e «O Último Ano em Marienbad», com o qual arrebatou o Leão de Ouro no Festival de Veneza, Alain Resnais é uma referência fundamental na história do cinema. Companheiro de geração dos cineastas da «Nouvelle Vague» francesa sem nunca integrar o movimento, Resnais foi um eterno experimentador e conseguiu que o seu cinema nunca perdesse a urgência, o fascínio e o apuro estético e literário.

Rasnais tem um importante lote de documentários rodados nas décadas de 40 e 50, nomeadamente «Guernica» (1950), sobre a pintura de Picasso, «Toute la Mémoire du Monde (1956), sobre a Biblioteca Nacional Francesa, e principalmente o incontornável «Noite e Nevoeiro» (1955), talvez um dos primeiros e mais importantes filmes sobre os campos de concentração nazis.

Estreou-se na realização de longas-metragens em 1959 com o clássico «Hiroshima, Meu Amor», baseado num argumento de Marguerite Duras, e uma das fitas que, à época, mais se tornou simbólica da nova vitalidade do cinema europeu. Assinou de seguida outro clássico, agora escrito com Alain Robbe-Grillet, «O Último Ano em Marienbad», que provocou inúmeros debates sobre os seus significados, que ainda hoje permanecem.

Abraçou os temas políticos fraturantes da sua época com «Muriel» (1963), sobre o conflito na Argélia, e «A Guerra Acabou» (1966), sobre os opositores de esquerda ao regime de Franco em Espanha.

Para alguns espetadores o seu nome viria a ganhar maior notoriedade a partir dos anos 70, quando assinou uma série de filmes com grandes estrelas do cinema francês. O primeiro deles é «Stavisky» (1974), com Jean-Paul Belmondo, evocando um escândalo politico dos anos 30 a partir de um argumento de Jorge Semprún, seguindo-se «Providence» (1977), com John Gielgud e Dirk Bogarde, e «O Meu Tio da América» (1980), com Gérard Depardieu.

Nos anos 80 abraça o melodrama com os belíssimos «Amor Eterno» (1984) e «Mélo» (1986) e na década de 90 continua imparável na sua veia experimentalista com o díptico «Fumar»/ «Não Fumar», dois filmes com as mesmas personagens cujas vidas seguem tangentes continuamente diferentes em consequência da decisão de fumar ou não fumar.

Nunca parou de trabalhar e foi um caso único de sucesso contínuo de crítica e público, comprovado pelo êxito seguinte de filmes como o musical «É Sempre a Mesma Cantiga» (1997), «Nos Lábios Não» (2003), «Corações» (2006) e «Ervas Daninhas» (2009). O seu penúltimo filme, uma belíssima meditação sobre o teatro, «Vous n'Avez encore rien Vu» (2012) nunca chegou a estrear em Portugal.

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