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«Os Condenados de Shawshank»: o fracasso que se tornou um clássico faz 20 anos

Chegou às salas de cinema a 23 de setembro de 1994 e passou completamente despercebido, mas nos últimos 20 anos atingiu um estatuto igualado por poucos.

Atualmente, é um dos títulos mais vendidos no mercado de DVD e Blu-ray e exibidos no pequeno ecrã. Há anos que está em primeiro lugar nos melhores filmes de sempre de acordo com os utilizadores da base de dados Internet Movie Database. As frases ditas em narração por Morgan Freeman são citadas de memória; a música de Thomas Newman foi reciclada para incontáveis trailers.

Em 1994, foi muito diferente: quando o realizador Frank Darabond cortou parte do título «Rita Hayworth and Shawshank Redemption» por recear que se pensasse que era um filme sobre a atriz, muitos, incluindo Morgan Freeman, pensaram que a decisão seria fatal para a carreira comercial.

Construído a partir da primeira de quatro novelas escritas por Stephen King reunidas na coletânea «Different Seasons», que ajudaram a alterar a reputação de apenas escrever obras de terror, «Os Condenados de Shawshank» estreou há 20 anos em 33 salas nos EUA (a Portugal chegaria apenas a 31 de março de 1995) e passou completamente despercebido junto do grande público. À sua frente nas bilheteiras ficou, por exemplo, «Exit to Eden», uma comédia atroz de Garry Marshall com Dan Aykroyd e Rosie O'Donnell.

Mesmo quando expandiu no mês seguinte, nunca esteve em exibição em mais de 944 salas e ao fim de 10 semanas desapareceu do circuito comercial com receitas de 16 milhões de dólares. Nem os críticos lhe valeram: no fim do ano, apenas uma associação da especialidade, a do estado do Utah, o distinguiu como melhor filme.

Ironicamente, foi uma outra associação, tantas vezes criticada, que lhe encontrou as qualidades que hoje o celebram: a Academia de Artes e Ciências Cinematográficas, que vota os Óscares. O filme foi a grande surpresa do anúncio das nomeações a 14 de fevereiro de 1995: partilhou com «Balas Sobre a Broadway», de Woody Allen, e «Pulp Fiction», de Quentin Tarantino, o segundo lugar entre os mais nomeados, com sete, numa lista liderada pelo fenómeno de popularidade que era «Forrest Gump», com 13 nomeações, que seria o grande distinguido com os prémios a 27 de março.

Embora nenhuma das nomeações, que incluíam a de melhor filme e melhor ator para Freeman, tenha resultado em prémio, começou aí a lenta descoberta do filme. Numa decisão de risco, o estúdio decidiu fazer 320 mil cópias em VHS, algo nunca visto para uma desilusão comercial, e foi no circuito de vídeo que «Os Condenados de Shawshank» encontrou uma segunda vida.

E esta não ficou pela descoberta que algumas pessoas fizeram na privacidade das suas casas: começou a passar a palavra e o fracasso converteu-se no título mais alugado de 1995.

Em Portugal, o fenómeno foi semelhante, graças ao vídeo e à exibição na RTP e subsequentemente no Canal Hollywood. De facto, foi a estreia em televisão que selou a reabilitação: nos EUA, isso começou quando o canal TNT, no cabo, adquiriu os direitos para o transmitir num segmento «Novos Clássicos». Desde 1997 que isso acontece e o filme tornou-se um favorito do Dia do Pai, sendo hoje um dos títulos mais exibidos na história da televisão norte-americana.

Em 2014, pode dizer-se que finalmente «The Shawshank Redemption» ganhou uma identidade própria e a sua reputação não para de crescer. Finalmente, a simples evocação do título é suficiente para identificar a história da lenta relação platónica que se estabelece entre os prisioneiros Andy Dufresne ( Tim Robbins) e Ellis ‘Red’ Redding (Freeman).

De facto, as qualidades de «Os Condenados de Shawshank», que remetem para o cinema de Frank Capra ou Preston Sturges (ainda que muitos nunca tenham visto os seus filmes), são intemporais e mesmo os que o viram muitas vezes parecem encontrar algo de novo a cada novo visionamento deste filme que os comoveu e inspirou pela sua sinceridade, humanismo, esperança e moral.


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