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Paul Newman morre aos 83 anos

Os rumores de uma doença cancerígena no actor fizeram as manchetes dos jornais durante os últimos meses, e a conclusão foi a que todos temiam: Paul Newman faleceu vítima de cancro do pulmão, aos 83 anos, na sua casa de Connecticut, a 26 de Setembro.

Era uma das grandes lendas de Hollywood, um dos actores que melhor corporizou as novas técnicas de actuação do designado «Método», que emergiu no cinema no início dos anos 50, fruto dos seus estudos de interpretação no Actor’s Studio de Nova Iorque, sob a tutela de Lee Strasberg.

Além do seu imenso talento, Paul Newman ganhou ainda notoriedade pela sua extraordinária beleza física e olhos azuis, pela sua paixão pelo desporto automóvel profissional e pelo imenso contributo que deu a campanhas de caridade durante toda a sua vida.

Nascido em Ohio, em 1925, Newman estudou um ano na Yale Drama School antes de partir para Nova Iorque e integrar o mítico Actor’s Studio, que haveria de revolucionar a interpretação no teatro e no cinema, através de nomes da sua geração como Marlon Brando e James Dean. Estreou-se na Broadway em «Picnic» e os seus primeiros sucessos chegaram com as primeiras encenações de «Desperate Hours» e «Sweet Bird of Youth».

O cinema não tardou em chamá-lo mas a sua estreia, em 1954, foi um desastre, com o épico de romanos «O Cálice de Prata», pelo qual chegaria a colocar na «Variety» um anúncio de página inteira a pedir desculpa. Mas à segunda foi de vez, e no drama de pugilismo «Marcado pelo Ódio», de Robert Wise, em que interpreta Rocky Graziano, Newman explodiu no ecrã em fúria e emoção incontida, e o público e os críticos acolheram-no de braços abertos. Daí para a frente, quase nunca falhou.

Logo a seguir, em 1957, com «Paixões que Escaldam», de Martin Ritt, contracenou com Joane Woodward, com a qual viria a casar.

Newman já era casado desde 1949 e tinha três filhos, mas, após o divórcio, o matrimónio com Woodward, de quem teria outros três filhos, revelar-se-ia um dos mais duradouros da história de Hollywood, precisamente até ao falecimento do actor.

Em 1958, recebeu a primeira de nove nomeações para o Óscar de interpretação masculina, por «Gata em Telhado de Zinco Quente», de Richard Brooks, e a sua carreira entrou em velocidade de cruzeiro.

Os anos 60 foram uma década irrepreensível, que o colocou no topo da lista de preferências do público e da crítica em filmes tão incontornáveis como «A Vida é um Jogo» (1961), «Hud – O Mais Selvagem entre Mil» (1963) e «O Presidiário» (1967), pelos quais recebeu mais três nomeações ao Óscar de Melhor Actor. Outros filmes dessa época são «Corações na Penumbra» (1962), adaptação cinematográfica da peça «Sweet Bird of Youth», o inovador filme de detectives «Harper, Detective Privado» (1966), o «thriller» de Alfred Hitchcock «A Cortina Rasgada» (1966) e o «western» revisionista «O Homem» («Hombre»).

Ainda em 1968, estreou-se na realização com o drama «Rachel, Rachel», que seria nomeado ao Óscar de Melhor Filme de 1969, e no final da década, chegou um dos seus maiores êxitos de sempre e a primeira parceria com Robert Redford, o «western» «Dois Homens e Um Destino», de George Roy Hill, numa parceria que voltaria a fazer maravilhas em 1973, na película «A Golpada», vencedora de múltiplos Óscares, incluindo o de Melhor Filme.

Na década de 70, Newman alternou grandes êxitos como «A Torre do Inferno» (1974) com filmes menores de grandes realizadores, como «O Juiz Roy Bean» (1972), de John Huston, ou «Buffalo Bill e os Índios» (1975), de Robert Altman, além do filme de culto «Os Vencedores», (1977), de George Roy Hill. Voltou à realização, em 1972, com o elogiado «O Efeito dos Raios Gama no Comportamento das Margaridas» e, mais tarde, em 1984 com «O Confronto» e 1987 com «Algemas de Cristal».

A década de 80 foi a da consagração como grande senhor do cinema, por quem a idade parece não passar e cuja qualidade só parece aumentar, imagem que o acompanharia, com justiça, até ao fim da vida. Pelo drama de tribunais «O Veredicto» recebeu a sexta nomeação para Óscar de Melhor Actor.

Tendo já atrás de si a imagem do eterno derrotado da Academia, Newman decidiu não comparecer à cerimónia da sétima nomeação, só que essa seria de vez: por «A Cor do Dinheiro», sequela de «A Vida é Um Jogo» realizada em 1986 por Martin Scorsese, o actor ganhou finalmente o ambicionado troféu. Um ano antes, a Academia tinha-o premiado com um Óscar especial de carreira e em 1993 receberia o Prémio Humanitário Jean Hearsholt, pela sua inestimável contribuição para obras de caridade.

Na verdade, em 1982, o actor fundara a empresa de confecção alimentar Newman’s Own, que teve um êxito fulgurante com um molho vinagrete especial e cujo sucesso alastrou para a concepção e distribuição de vários produtos alimentícios, cujos rendimentos totais, que já ultrapassaram os 200 milhões de dólares, foram totalmente doados a obras de caridade. Além disso foi um dos fundadores de um campo de férias para crianças doentes que teve expansão internacional.

Os seus papéis no cinema foram-se tornando mais esporádicos, mas sempre motivo dos mais rasgados elogios.

Desde então, os principais títulos foram «Blaze, Amor Proibido» (1989), «Mr. e Mrs Bridge» (1990), de James Ivory e com Joane Woodward, «O Grande Salto» (1994), dos irmãos Coen, «Vidas Simples» (1994), de Robert Benton, pelo qual recebeu nova nomeação ao Óscar, e «Caminho para Perdição» (2002), de Sam Mendes, pelo qual conquistou a última nomeação ao Óscar.

O último filme em que participou foi o de animação por computador «Carros» (2006), da Pixar, como voz de um dos veículos, em tributo à sua longa paixão pelos automóveis: Newman correu profissionalmente durante muitos anos, e tornou-se mesmo o mais velho condutor a integrar uma equipa vencedora num evento importante, aos 70 anos.

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