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Substituição de Kevin Spacey em filme pode ser valioso (mas arriscado) precedente

Com Hollywood abalada pela sequência de denúncias de assédio sexual, os estúdios observam o corte e a substituição de Kevin Spacey do seu último filme como um audacioso mas arriscado precedente para lidar com este tipo de escândalo.

A Sony e o cineasta Ridley Scott foram elogiados por terem retirado o ator, de 58 anos, de "Todo o Dinheiro do Mundo", mas, com o lançamento previsto para daqui a apenas seis semanas, essa decisão pode sair-lhes cara.

"A Sony pôs as pessoas à frente dos lucros com a sua decisão de retirar Spacey de um filme a apenas semanas do seu lançamento", disse à AFP Jeetendr Sehdev, especialista em Hollywood e autor de vários best-sellers.

"O estúdio estabeleceu um novo padrão para Hollywood e isso é inspirador", acrescentou.

Spacey será substituído por Christopher Plummer no papel do milionário americano J. Paul Getty, na história sobre o sequestro, em 1973, do seu neto adolescente John Paul Getty III.

Conhecido pelo seu papel de 1965 como o Capitão Von Trapp em "Música no Coração", Plummer, de 87 anos, foi supostamente a primeira opção de Scott, mas este acabou por ser pressionado a escolher um nome mais de primeira linha.

Uma mãe de Massachusetts acusou Spacey, esta semana, de ter abusado sexualmente do seu filho de 18 anos na ilha de Nantucket no ano passado.

Spacey também foi acusado de tentar violar um jovem de 15 anos em Nova Iorque e de fazer avanços sobre o ator Anthony Rapp há décadas, quando este tinha 14 anos.

Sem precedentes

Embora não seja a primeira vez que cineastas se viram obrigados a tomar decisões rápidas de mudanças em elencos, um movimento tão audaz por motivos não criativos num filme terminado não tem precedentes.

A produtora TriStar, da Sony, já retirou o projeto do prestigiado festival de cinema AFI Fest em Los Angeles, mas a equipa de Scott continua a trabalhar para cumprir o lançamento previsto para 22 de dezembro.

"Muitas celebridades comportam-se mal, mas para o público é especialmente difícil perdoar acusações de agressão sexual infantil. Duvido que vejamos um regresso de Spacey", acrescentou Sehdev, autor de "The Kim Kardashian Principle".

"Kevin Spacey tornou-se tóxico por uma boa razão. As audiências julgam as marcas segundo a rapidez com que agem. Se valoriza a sua reputação, deve afastar-se de Spacey imediatamente", opinou.

Se a decisão de retirar Spacey foi simples, a corrida para terminar o filme a tempo da sua data de lançamento original é mais complicada.

A Sony e a Imperative Entertainment consideraram adiar o lançamento até 2018, segundo a revista Variety.

Mas queriam que o filme estreasse antes da série da FX "Trust", de Danny Boyle, que também aborda o sequestro de Getty e que será lançada em janeiro.

Também se espera que o filme esteja entre os favoritos para a próxima temporada de prémios, mas precisa de chegar aos cinemas no fim do ano para ter uma oportunidade nos Óscares.

Embora o engano digital nunca seja simples, a tecnologia avançou o suficiente para que Plummer possa fazer grande parte de sua interpretação contra um fundo verde, que depois seria sobreposta às imagens existentes.

Mas entende-se que a melhor opção é voltar a trazer os coprotagonistas Mark Wahlberg e Michelle Williams para que repitam as suas cenas em conjunto com o substituto.

Espera-se que os oito dias adicionais requeridos para que Plummer repita as cenas de Spacey custem cerca de 2,5 milhões de dólares, mas o maior prejuízo poderia vir dos novos trailers, cartazes e da pós-produção.

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