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Disco da semana: Os novos mundos dos Guta Naki

Uma voz expressiva, letras que evitam lugares comuns e atmosferas de muitos tons e sabores. Tudo recheado com uma sensibilidade que não deixa de ser pop. E tudo bem evidente no disco de estreia homónimo dos Guta Naki.

No ano passado foram os vencedores do Restart Resound Fest, distinção que deu maior visibilidade a um percurso iniciado em 2008, em Lisboa, e que desde então tem passado por palcos de outras cidades. E foi ao vivo que Cátia Pereira (na voz), Dinis Pires (no baixo e melódica) e Nuno Palma (nas guitarra, teclados e programações) apresentaram algumas canções agora editadas no primeiro disco dos Guta Naki.

Aposta da Meifumado Fonogramas, o álbum mantém as doses de risco e ousadia habitualmente presentes nos lançamentos da editora independente - como o disco dos AbztraQt Sir Q, também deste ano - sem no entanto cair em excessos de irreverência ou excentricidade. Antes pelo contrário, já que propõe uma pop fresca e atenta a outros horizontes, capaz de viajar por vários ambientes ao longo do alinhamento (por vezes até na mesma canção) e chegando quase sempre a bom porto.

Os temas, cantados em português (exceptuando a bilingue "Volúpia do Aborrecimento", também em castelhano), espreitam situações onde, nos cenários mais fortes, o desejo surge como resposta ao tédio do quotidiano (em "Novo Mundo", retrato de figuras "com a fome no olhar"), a obsessão se torna sinónimo de violência (na tensão cortante de "Clark Nova (Metal House)") ou se recordam casos de faca e alguidar (na bairrista "Vizinha", que os Deolinda não desdenhariam).

O peso das palavras não retira a atenção à produção, que concilia bem o electrónico e o acústico - em especialna belíssima"Cantiga de Amigo", talvez o grande momento do disco - e assegura a surpresa de faixa a faixa. Elemento essencial, a voz de Cátia Pereira cativa em episódios onde a vulnerabilidade conduz os acontecimentos - as serenas "Margarida" ou "Quando me for" - mas também mostra as garras no crescendo de "Loseyhand" e inquieta em "A Meias com Miller" (que ouvida à noite, numa casa vazia, é canção para causar arrepios).

"Minha língua não tem identidade", canta a vocalista em "Blues", o tema que mais se relaciona com o ecletismo presente no disco. Já das canções que se sucedem neste alinhamento versátil mas coeso não pode dizer-se o mesmo: identidade não lhes falta.

@Gonçalo Sá

Videoclip de "Novo Mundo":

Os Guta Naki apresentam o disco no Espaço Nimas, em Lisboa, a 16 de Dezembro. A banda tem cinco temas do álbum disponíveis para audição no Myspace.

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