“Black Messiah” surge depois de um hiato de 14 anos, mantido desde o clássico “Voodoo”. Ou seja, o regresso da lenda quase se sobrepõe à relevância do disco em si, até porque, depois de tanto tempo, um novo album já era considerado, por muitos, um mito.

Também não era caso para menos, já que D'Angelo se tornou num nome incontornável da soul ou da neo-soul, muito graças aos seus dois primeiros discos. Em 1995 “Brown Sugar” marcou a estreia, com vendas de mais de um milhão de cópias e a deixar clássicos como ‘Lady’ ou o tema-título.

Seguiu-se uma pausa de cinco anos até chegar um dos melhores álbuns soul de todos os tempos, “Voodoo” (2000). D’Angelo estava então em grande forma física, como mostrou o emblemático videoclip de ‘Untitled (How Does It Feel)’, mas o estado de graça criativo era tão ou mais evidente.

Foi também aí que tudo parou. Enfim, quase tudo. Houve tempo para algumas colaborações esporádicas ao lado de companhias como Snoop Dogg, Common ou Q-Tip e digressões pela Europa.

Durante os tempos que se seguiram foram profetizados vários regressos aos discos, mas do que mais se falava era dos problemas de D'Angelo com as drogas e álcool ou de um grave acidente de viação.


Ultrapassada essa fase, podemos interpretar o título “Black Messiah” como uma uma metáfora, bem ao jeito dos auto-intitulados "deuses" Jay Z, Eminem ou Kanye West. Mas talvez o interpretemos mal. O que está aqui em jogo não é o ego do autor. O disco tinha edição prevista só para 2015, mas foi antecipado devido aos crimes e controvérsias raciais que têm marcado parte dos EUA nos últimos tempos.

"É sobre as pessoas que se erguerem em Fergurson e no Egito, que ocupam Wall Street e qualquer lugar em que as comunidades se fartaram e decidiram fazer com que a mudança acontecesse”, escreveu D’Angelo a propósito deste terceiro disco.

Mas se o regresso de D'Angelo já seria um acontecimento por si só, “Black Messiah” tem a vantagem de ser um regress brilhante. O cantor não se limitou a partir do local onde tinha parado em 2000, deu um salto considerável e trouxe-nos um álbum fresco, invulgar, inesperado.

É claro que encontramos aqui marcas clássicas das composições de D'Angelo: o falsete, as várias camadas de vozes e harmonizações, os ambientes negros e crus, tudo isto num disco completamente orgânico, já que o artista garante que não foi usado nenhum plug in digital durante a gravação.

“Todas as gravações, processamentos, efeitos e misturas foram feitos no domínio analógico, usando principalmente material vintage. Para melhores resultados, ouvir no volume máximo”, escreveu o músico nas notas do disco, e assim o fizemos.

Velhas lições e novos ensinamentos

Temas como “Aint That Easy”, “Sugah Daddy”, “Till It’s Done (Tutu)” ou “Prayer” mostram que quem sabe não esquece. Ambientes downtempo com fusões de funk, jazz e soul, repletos de groove e com uma harmonização inconfundível.

Mas encontramos também coisas novas, guitarras rock ou várias canções mais aceleradas, como “1000 Deaths”, um tema que começa com um sample e uma reflexão sobre Jesus ser negro. Nesta faixa, a bateria segue feroz enquanto a voz de D'Angelo, suja pela distorção, canta: “I won't nut up when we up thick in the crunch/ Because a coward dies a thousand times/ But a soldier only dies just once/ Once, once”.

“The Charade” é outro dos momentos mais dinâmicos e vincado por uma letra política, embora não inspirada nas recentes mortes de jovens negros por polícias brancos nos EUA (“Degradation so loud that you can't hear the sound of our cries (doo, doo)/ All we wanted was a chance to talk/ 'Stead we only got outlined in chalk/ Feet have bled a million miles we've walked/ Revealing at the end of the day, the charade”).

“I'll Never Betray my Heart” é uma canção conduzida pela guitarra, muito jazzy, com melodias cativantes e que facilmente nos deixa a sorrir. “Back to The Future (Part I)” oferece uma fusão jazz soul cujo baixo uptempo nos leva a dançar. E enquanto nos embala, D'Angelo garante estar diferente (“I just wanna go back, baby/ Back to the way it was/I used to get real high/ But now I'm just gettin' a buzz”).

“The Door” é outro tema que nos rouba a atenção. Aparentemente simples, dispara uma melodia que não nos sai da cabeça e nos faz querer acompanhar o cantor com assobios.

Ao ir mantendo sempre este nível, “Black Messiah” não nos deixa dúvidas: D'Angelo está de volta. Por quanto tempo? Realmente isso não interessa muito. Para já está marcada uma digressão europeia sem datas para Portugal. Uma pena, porque este é disco para funcionar ainda melhor ao vivo, o habitat natural de boa parte destas canções. Contentemo-nos, no entanto, com o facto de “Black Messiah” ser um album perfeito para fechar 2014...

@Edson Vital