Artigo

Ligados às Máquinas: nesta orquestra o corpo deixa de ser prisão

A Associação de Paralisia Cerebral de Coimbra (APCC) lançou a orquestra Ligados às Máquinas, em que através de uma miríade de samples (trechos de música), os elementos do grupo deixam para trás a sua condição física e entregam-se à criação musical.



É dia de encontro e a orquestra Ligados às Máquinas prepara-se para ensaiar. Na sala, há guitarras, um bombo, pratos, um órgão, um gira-discos. Mas o musicoterapeuta Paulo Jacob não procura nenhum instrumento. Tenta desenvencilhar-se de cabos e ligá-los a uma caixa de madeira onde está o hardware, "makey-makey", que torna possível ao Sérgio, à Élia, à Andreia e a outros seis colegas criarem música a partir de samples das suas canções favoritas.

Ligada ao computador e simultaneamente a cada um dos elementos do grupo, a placa de hardware torna possível que pessoas com grandes limitações motoras possam lançar o som, através da transformação de qualquer objeto que seja condutor de corrente numa espécie de botão, "de um clique de um rato [de computador]", explica Paulo Jacob. Desta forma, o sample é acionado através da forma que mais convém a cada um, seja com a cabeça, os lábios, a mão ou o pé.

O projeto surgiu há dois anos e meio, depois do musicoterapeuta descobrir a placa que lhe permitiria criar "uma orquestra de samples" para "pessoas com grandes limitações motoras e que não tivessem muito acesso à atividade musical".



Os elementos da orquestra foram desafiados a levar para a sede da APCC músicas dos seus artistas preferidos, numa escolha eclética onde coube Metallica, Queen, Tony Carreira, Amália ou Da Weasel, e foram cortando partes das músicas, a dita "samplagem" - prática normalmente associada ao hip-hop.

Para além da música, há uma "grande preocupação" por parte de Paulo Jacob para que as pessoas evoluam e adquiram competências "que lhes permitam fazer outro tipo de coisas".

Durante o ensaio, nota-se a concentração e atenção dos membros do Ligados às Máquinas, pessoas com paralisia cerebral ou doenças degenerativas, que têm uma "série de movimento involuntários e condições patológicas que não permitem que lá fora as coisas sejam tão controladas por eles", refere.

"Aqui, têm uma coisa muito querida, que todos gostam, que é a música. A música é movimento e induz a um movimento, a uma cadência e a um ritmo e por eles próprios acabam por respeitar [esse ritmo]. Só lhes dou um sinal", sublinha.

Nas músicas que tocam, ouvem-se guitarras com ritmos de funk, o início do Canto de Ossanha, de Vinicius e Toquinho, arranjos de cordas de música clássica, elementos de percussão ou até vozes retiradas da série Os Amigos de Gaspar.

"Já lá vão duas semanas [desde que ensaiaram] mas não se esquecem. Não há ferrugem", realça Paulo Jacob.

Para Sérgio Felício, de 35 anos, tocar na orquestra dá-lhe um sentimento de liberdade e "mais adrenalina", mostrando o que "as pessoas com mobilidade reduzida são capazes de fazer".

Élia Maia, de 20 anos, aceitou o convite de Paulo Jacob para participar no Ligados às Máquinas porque o projeto é mais a sua "onda". Aliás, já participou num concerto da orquestra e "não estava nervosa, por incrível que pareça".

"Custa a sair de casa, mas venho e fico satisfeita com aquilo que está a acontecer aqui", conta Andreia Matos, de 38 anos, que tem de se socorrer do grau superlativo absoluto sintético para classificar a experiência: "Não me sinto entusiasmada, sinto-me entusiasmadíssima, satisfeitíssima, felicíssima da vida. Acho que isto faz as pessoas felizes. Para mim, faz as pessoas felizes".

@Lusa

Comentários