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PZ: "Vai ser através da singularidade da minha música que vou receber dinheiro"

Desde o lançamento do seu primeiro álbum, “Anticorpos”, PZ já apresentou ao púbico sucessos incontestáveis, autênticos êxitos de verão, como “Croquetes” ou “Cara de Chewbacca”. Em “Mensagens da Nave-Mãe”, novo disco, Paulo Zé Pimenta transporta-nos para um universo "100% natural", onde andamos ao ritmo do "Dinheiro" e quase "Sempre a nanar". Encontrámos PZ no Plano B, sala de espetáculos portuense, que, após superar a "Neura" matinal, nos contou os segredos de um artista a solo e desvendou como é trabalhar com Alexandre Azinheira na realização dos seus vídeos. E ainda houve tempo para um “pezinho de dança”!<


Palco Principal - Após teres passado tanto tempo a afirmá-lo, não posso deixar de perguntar: hoje estás com a neura?

PZ - Se estou com a neura? Hoje estou um bocado! (risos) Normalmente, acordo sempre com a neura. Mas depois, à medida que se vai desvanecendo o nevoeiro matinal, consigo sair dela. Acho, até, que antes acordava mais vezes com a neura.

PP - Talvez por lhe teres dedicado um tema do teu novo disco...

PZ - Era uma expressão que a minha mãe usava comigo e com o meu irmão: “Ui! Hoje vocês acordaram com a neura!” ou “Ele acordou com a neura!”. Às vezes, dizia-me muito: “estás com a neura!”. E pronto, naquele beat, naquele momento, surgiu-me essa expressão e depois criei a letra à volta dela.

PP - Porquê este tema para single de apresentação do “Mensagens da Nave-Mãe”?

PZ - Sempre achei esta uma das músicas mais fortes, já quando estava a idealizar o álbum. O beat, a base eletrónica… É uma boa representação do que é o disco. Para além disso, a ideia que o Alexandre Azinheira teve para o vídeo também ajudou imenso. Eu já tinha uma ideia do videoclip que queria fazer com ele e, à medida que a ideia se foi desenvolvendo, fez todo o sentido que fosse o single que saísse quando o álbum fosse editado. O “Dinheiro”, pelo contrário, foi uma coisa feita muito no momento. Percebo que seja, para certas pessoas, uma… Não sei, a maneira como eu canto; a eletrónica, se calhar mais agressiva; a letra... Mas digo tudo um bocado descomplexado, não é para ofender ninguém, nem nada que se pareça. Gosto muito, também, do resultado do videoclip. O “Dinheiro” chamou e a “Neura” representa o resto do álbum.

PP - No entanto, foi “Dinheiro” a primeira amostra do novo disco...

PZ - O “Dinheiro” foi o single de antecipação, um bocado para mostrar ao pessoal que vinha aí um novo álbum. "Já há dinheiro para fazê-lo". (risos)

PP - Voltando ao videoclip de "Neura", onde surges com uma máscara com o teu rosto - máscara que, aliás, o público também pode adquirir e usar. Porque é que a imagem com que ficamos de “Neura” é a tua?

PZ - Porque é a minha neura! (risos) Fui eu que fiz a neura! (risos) Dentro da neura – a má disposição de uma pessoa –, podemos criar uma coisa que produza boa disposição. Eu acho que é o caso do videoclip e da música. Se reparamos bem, há muitas músicas depressivas que falam sobre temas depressivos – se calhar, não tão diretamente –, mas são músicas fantásticas e que nos tiram até da neura.Uma banda que eu gosto muito de usar como exemplo - e que, para mim, é das maiores influências - são os The Smiths. Eles pegam muitas vezes, lá está, em temas depressivos. Há pessoas que até dizem: “ui, esses são muito depressivos e não sei quê…”. Mas ele [Morrissey] canta de uma maneira e tem as letras de tal modo, que acaba por expor esses problemas de uma forma muito própria, que leva até para o humor. Isto tem sido feito na música desde sempre, desde o princípio. A dor, a insegurança, a neura, o lado mais negro. Acho que tem criado sempre peças muito bonitas – musicalmente falando. Se calhar, esta [a "Neura"] é muito in your face. Masdepois, no fim, digo que tudo vai correr melhor, vai saber melhor, quando acordares amanhã.

PP - Temas como “Dinheiro”, “És o maior” ou “Bestas”, são autobiográficos ou podemos considerá-los críticas à sociedade?

PZ - Respondo-te com a “100% Natural”, que é uma mistura. Não é autobiográfico, não é tipo reality show… É uma mistura.

PP - Achas que, atualmente, os artistas fazem “tudo por dinheiro”? Que foi dificultado o trabalhado de “ser artista”/ “ser músico”?

PZ - A música “Dinheiro” pode ser interpretada de várias maneiras, e eu gosto de deixar essa interpretação aberta às pessoas. Mas pode ser isso: sendo eu músico, estar a falar sobre isso. Mas é uma coisa mais geral. Se calhar, é uma coisa muito forte para se dizer, mas, se pensarmos bem na forma como a sociedade está montada, temos que tentar fazer o que gostamos mas, a certo ponto, vamos ter que o fazer também por dinheiro. Senão, não conseguimos sobreviver. Obviamente que também pode ser interpretada dentro da música. Se calhar, há certas fórmulas, mas, no meu caso, nunca penso nisso, faço sempre o contrário. É assim que vou continuar a fazer e é assim que eu vou receber dinheiro - por concertos, por vídeos ou pelo que seja. Vai ser através da singularidade da minha música. Basicamente, não há fórmulas para fazer dinheiro. É aquele cliché. Na verdade, uma pessoa tenta fazer o que gosta e tenta receber algum através da sua arte, do seu talento, ou da área em que está inserida. Mas esta sociedade faz-nos, realmente, fazer coisas por dinheiro e até nos esquecemos.

PP - Nas tuas músicas, ouvimos-te mais conversar, digamos, do que propriamente cantar... Parece haver todo um diálogo... É propositado?

PZ - Então não canto?! (risos) É propositado, sim. Quando estou a ouvir-me, faz sentido, para mim, parecer que estou a conversar, parece uma coisa mais natural. Mesmo ritmicamente. Posso até usar partes de hip-hop, que sempre foi aquele género que as pessoas associam ao falar por cima de um beat e através de um ritmo. Mas acho que o hip-hop abre portas para se poder falar e ser, ao mesmo tempo, melodioso. E uma melodia não precisa de ser harmonia, pode ser um ritmo. Onde está a melodia? Pode estar no ritmo. Em mim, está um bocado no tom conversa. Mas faço-o sempre de uma maneira que bata certo com o ritmo que está por detrás. Nos refrões, por exemplo, aí já gosto de cantar mais um bocado - em umas mais do que outras, mas há certas músicas que são mais cantadas, como a “Auto -Estima”. Acho que aquilo é cantado, mas um bocado como se estivesse a falar, porque eu gosto dessa naturalidade.

PP - Descreve-nos o processo de criação dos teus temas - o que é que surge primeiro: as letras, as melodias, as harmonias…?

PZ - É uma mistura… (diz PZ a cantar e a rir). É um bocado como perguntares a alguém que está a escrever um livro como é que surge, ou, quando alguém está a fazer um quadro, como é que o pinta...

PP - Eu pergunto isto porque, normalmente, os artistas costumam estar acompanhados por mais músicos. Mas, no teu caso, fazes tudo sozinho...

PZ - Sim... Normalmente, começo com o beat e, mais tarde, vem-me a letra à cabeça. Por vezes, até a harmonia da letra. Depois faço com que as palavras preencham, ou representem, essa harmonia que eu estou a imaginar. Às vezes, sai-me a palavra-chave, ali no momento. Muitas vezes, quando estou a fazer um beat, começo logo a pensar no hook da música – ou o gancho, uma expressão que os músicos usam e que tem a ver com uma coisa catchy,uma coisa que faça sentido para mim. Mas também, às vezes, tenho músicas na cabeça e só depois é que faço o beat para ser o suporte dessa letra. Mas neste álbum, “Mensagens da Nave-Mãe”, foi feito, na maior parte delas, o beat e a seguir a música. Por exemplo, no “Sempre a nanar” já tinha esse refrão na cabeça: “Há tanto para fazer e andas sempre a nanar”. Um refrão horrível mas que eu adoro (risos). Tem muito a ver com aquela expressão: “ei, estás sempre a nanar!". Muitas vezes acontece comigo! Queria ir a este concerto, ou ir àquela exposição, ou ir ali ou ir acolá… E então parece que estamos sempre a nanar e não fazemos nada. Eu já tinha esse refrão e depois comecei a fazer essa base instrumental, sem pensar em nada, e, de repente: “ah, o sempre a nanar até encaixa aqui!". Às vezes acontece isso, o que é interessante. Por vezes, tenho uma música na cabeça que fica aqui a ruminar durante muito tempo e, de repente, faço e beat e “olha, este beat por acaso fica bem com esta [letra]”. Mas, na maior parte das vezes, a música é feita para uma base instrumental.

PP - À primeira vista, as tuas músicas não são dançantes, mas tu pões toda a gente a dançar… Aliás, és tu que dás o mote...

PZ - Eu acho que são dançantes… Na minha cabeça, são (risos). Mas sim, são uns ritmos um bocado mecânicos, um bocado bouncing. Eu gosto desses ritmos, assim meio saltitantes. Mesmo os instrumentais, às vezes, são um bocado humorísticos em certas partes. Mas acho que são dançantes, mas não aquele dançante de pista de dança, aquela coisa do ritmo - isso não. Retratam muito as minhas influências: o tecno alemão, o tecno minimalista, a música abstrata e ambiente, em que uma pessoa dança muito com a cabeça. Quando comecei, estava sozinho com a máquina. Como já tinha uns videoclips em que dançava, decidi fazer uma peça teatral dos momentos dos vídeos, como o “O que me vale és tu”. Essa é, um bocado, a maneira como eu danço quando me liberto totalmente. Hoje em dia, quando saio à noite, por exemplo, quando estou mais fora, danço assim. Mas é raro, porque estou contido. Hoje em dia, as pessoas saem e só se abanam. Ficam ali a ouvir e a beber. Sei lá, a música, para mim, também é uma maneira de me libertar de certos constrangimentos da sociedade. Mas parece que estamos cada vez mais presos a um colete-de-forças social imaginário que nos faz comportar de certa maneira. Há uma música em que em falo disso - a “É só um facto”: “Quando tu danças pareces uma múmia/ não te aborreças não é uma calúnia/ é só um facto/ apenas e só isso”. Antes - vemos em filmes e eu lembro-me dos meus pais contarem - tocava o twist e as pessoas dançavam. Hoje em dia, como é tudo tão ritmado e tão abstrato… Depois surge a questão das bebidas e das drogas para nos libertarem, para dançarmos esses géneros de música. Acontece isso em certos festivais, como o Boom Festival e festas de transe. Parece que precisamos, lá está, da pílula, da pastilha mágica, para nos libertamos. Muitas vezes, isso é apenas um placebo.

PP - Alguns dos teus videoclips são realizados também por ti. Achas importante que o músico esteja envolvido em todas as partes do seu projeto?

PZ - Acho importante mas depende também do contexto de cada músico. No meu caso, sempre me interessei e já fiz videoclips para outras pessoas. E já fiz videoclips só para mim. Quando eu era puto, pegava em músicas que gostava, fazia videoclips e editava. Sempre adorei editar o vídeo ao som da música. Por que não aproveitar isso para os meus vídeos? Até se torna numa extensão daquela estética do do-it-yourself que eu tenho na música. Faço os meus próprios vídeos mas também gosto de ter outras produções mais sofisticadas. Trabalho muito com o Alexandre Azinheira, que foi quem fez a “Neura”, os “Croquetes”, “Dinheiro”, “Sem ponta por onde se pegue”… Uma pessoa nota, quando vê esses vídeos, que são produções que têm outras personagens, que têm outra fotografia. Os meus vídeos são feitos com os meios que eu tenho. Tento arranjar, dentro do limite, uma ideia que funcione. Mas, para já, as únicas ideias que eu tive foi dançar em frente à câmara! (risos) Mas, basicamente, tento ser eu, quando estou nesses videoclips autoproduzidos, liberto-me completamente. Se envolver muitas pessoas, sou um péssimo realizador. Sou um “toninho”, como se diz, e não consigo mandar nas pessoas. Quando vemos alguém como o Alexandre a trabalhar, vemos o que é, realmente, um realizador. Com uma equipa grande, com a pessoa em questão – lá está, com o músico. Se for preciso dar um berro, dá-se um berro. A visão está ali, o controlo absoluto da equipa, e isso é que é um realizador, na verdadeira ascensão da palavra. Eu tenho pouca experiência nisso, eu gosto de ser realizador das minhas cenas, com pessoas em que confio, de produções muito pequeninas. Gosto de ter esses limites para me poder expressar da maneira que for possível.

Catarina Soares

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