Pessoa

Ana Miranda

Ana Maria Nóbrega Miranda (Fortaleza, 19 de agosto de 1951) é uma actriz, poetisa e romancista brasileira.

Ana Maria Nóbrega Miranda (Fortaleza, 19 de Agosto de 1951) é uma actriz, poetisa e Romance Brasil.

Biografia


Ana Miranda nasceu em Fortaleza, Ceará, em 1951, e mudou-se para o Rio de Janeiro aos cinco anos de idade. Em 1959 foi para Brasília, onde o pai, engenheiro, trabalhava na construção da cidade. De volta ao Rio de Janeiro, deu continuidade a seus estudos. Publicou os livros de poesia Anjos e demônios ( 1979) e Celebrações de outro ( 1983).

Seu primeiro Romance, Boca do inferno ( 1989), tem como personagem central o poeta baiano Gregório de Matos. Recriando a linguagem barroca na fala dos personagens, Ana Miranda conta a trama histórica do assassinato do alcaide da cidade da Bahia, em que o padre Antonio Vieira foi feito réu, na Justiça, e o poeta Gregório de Matos ficou sob suspeita de participação no crime. Paralelamente, Ana Miranda conta a história ficcional de Maria Berco, ama de uma senhora da família de Vieira, que recebe a missão de esconder a mão decepada ao alcaide. Depois de perambular nas ruas com a mão, Maria Berco acaba roubando o anel que há na mão do alcaide, e esse erro transforma a sua vida. Com esse livro, o Barroco brasileiro é visto em toda sua exuberância, suas extravagâncias e suas contradições. Foi um livro tão bem aceito que ficou na lista dos mais vendidos do Jornal do brasil durante um ano. Foi publicado em diversos países, como França, Inglaterra, Itália, Estados Unidos, Argentina, Noruega, Espanha, Suécia, Dinamarca, Holanda, Alemanha. Ana Miranda recebeu, com esse livro, o Prêmio Jabuti de Revelação, em 1990. Ele foi citado por um grupo de intelectuais, brasileiros e portugueses, no cânone dos maiores romances em língua portuguesa do século XX. A lista desses romances, foi publicada no jornal O Globo, em 5 de setembro de 1988, no Caderno prosa e Verso.

Seu segundo romance, O retrato do rei, uma recriação histórica da Idade do Ouro do Brasil, foi publicado em 1991. Também tematiza o erro transformador, pois a protagonista, Mariana de Lencastre, esconde o retrato do rei de Portugal, o que acaba precipitando uma guerra entre paulistas e portugueses, a Guerra dos Emboabas, considerada por historiadores como o primeiro movimento nativista brasileiro. O terceiro romance, Sem pecado, uma ficção contemporânea ao estilo criminal que lembra Rubem Fonseca, orientador de Ana Miranda em seu primeiro livro, foi editado em 1993. Em 1995, saiu o romance sobre o poeta Augusto dos Anjos, intitulado A última quimera, que recebeu o prêmio de bolsa da Biblioteca Nacional. Conta a paixão de um personagem ficcional, pretenso amigo de infância do poeta paraibano, que é apaixonado pela esposa de Augusto dos Anjos, e pela poesia de Augusto dos Anjos, como se quisesse transformar-se no próprio poeta. Tanto que, promete a si mesmo queimar seus poemas, no caso de Augusto dos Anjos publicar algum livro. Augusto publica o Eu, pouco tempo depois morre. O narrador vê-se diante dessa alarmante situação, e acompanha o sentido da morte existente na obra de Anjos. O poeta das estrelas, Olavo Bilac, aparece no livro como um contraponto a Agusto dos Anjos, marginalizado, e Bilac era o Príncipe dos Poetas.

Em 1996, Ana Miranda publicou mais um romance de ficção histórica, Desmundo, que conta com a história de mulheres de Portugal que vieram para o Brasil para se casarem com os colonos, inspirado em episódio histórico, contido numa carta do padre Manoel da Nóbrega, em 1554. Desmundo é uma estonteante recriação do Brasil no século 16, visto sob olhar inédito de uma mulher, pois é narrado na primeira pessoa. Neste romance Ana Miranda explode em sua maior vocação, que é o tratamento da palavra a partir da intertextualidade e da poesia. Em Desmundo ela explora um trabalho experimental com a língua portuguesa arcaica, tornando-se uma autora ainda mais original e imprevista. Ainda em 1996, Ana Miranda publicou a novela Clarice, que reconta, criativa e ousadamente, a vida de Clarice Lispector, a grande escritora ucraniana-brasileira, que revolucionou, no Brasil, o modo psicológico de abordagem dos personagens.

O romance Amrik, 1997, cujo tempo histórico é o fim do século XIX, fala sobre os imigrantes libaneses em São Paulo. É a bela história ficcional de um senhor cego, no Líbano em lutas contra os drusos, que se vê na iminência de uma fuga por questões políticas, e pede ao irmão que lhe dê um dos seis filhos para lhe servir de guia. O pai dá a única filha mulher, a inesquecível personagem Amina, que é a narradora do livro. O tio cego, naim, ensina a menina a ler, para que ela leia em voz alta para ele os livros de sua biblioteca. Os dois libaneses acabam no Brasil, na América, ou Amrik, e Amina é envolvida num episódio que também se refere ao erro transformador. Aí Ana Miranda encontra uma chave experimentalista para junção de música, pois a narradora é dançarina libanesa, poesia, com a fala solta de um fluxo de consciência de alguém que mal sabe falar o português. Um resultado imprevisível, e uma leitura eletrizante, para quem aprecia as ousadias literárias. Criado em cima de textos clássicos da literatura árabe.

Em 1998, saiu a coletânea de poesias de amor conventual, Que seja em segredo de autoria de poetas portugueses freiráticos ou freiras, organizada por Ana Miranda; e, em 1999, ocorreu a publicação do primeiro livro de contos da autora, intitulado, Noturnos, contos que todavia funcionam como se fossem um romance, encadeados, sempre a mesma narradora, numa segunda experiência de literatura contemporânea. Os fragmentos são expelidos por uma personagem mulher presa em seu lar, buscando nas fantasias e na imaginação uma saída para a sua vida. Em 2000, Ana Miranda nos brinda com uma antologia de sonhos, que mais parecem um desfile de símbolos e de arquétipos, aterrorizantes, intitulada Caderno de sonhos, escrita quando a autora tinha vinte e um anos de idade. Há uma polêmica em torno da ideia de que o livro seja real, ou criado pela autora.

Em 2002, Ana Miranda publicou o romance Dias & Dias, como todos os seus outros romances, pela Companhia das Letras. Com uma narrativa que mais parece um diário, pela informalidade da linguagem e pelas informações sobre o Brasil do século XIX, Ana Miranda recria a vida de um dos nossos maiores poetas românticos: Gonçalves Dias. Há um esgarçamento da linguagem, que adquire uma singeleza romântica, pois o livro recria sentimentos e significados do Romantismo Brasileiro. Esse livro recebeu o Jabuti na categoria Romance, em 2003, assim como o prêmio da Academia Brasileira de Letras, no mesmo ano e categoria.

Apesar de Ana Miranda escrever sobre temas relativos a nossa história literária, e demonstrar preocupação na conservação e preservação do tesouro literário brasileiro, sua obra mergulha em um tema que se refere a sua experiência, enquanto mulher, e autora, e de tantas pessoas, nos dias atuais, que é o sentimento de exílio, belamente expresso em seu último romance, Dias & Dias, sobre o poeta do exílio, que é Gonçalves Dias, autor da Canção do exílio, a mais famosa de todas as poesias brasileiras: "Minha terra tem palmeiras, onde canta o sabiá". Os romances de Ana Miranda são fartamente estudados e adotados em estudos literários, como criação de um contexto das escolas literárias do Barroco e do Romantismo brasileiros. Trabalha também sobre a alteridade. Jamais a autora aceita ser algo próximo de si, busca recriar-se em personagens diferentes de seu ego e sua memória.

Deus-dará ( 2003) é uma reunião de crônicas escritas por Ana Miranda para a revista Caros Amigos. Em 2004, foi publicado o primeiro livro infanto-juvenil da autora, Flor do cerrado, que também inaugura a literatura autobiográfica em sua obra. Nesse mesmo ano, Ana Miranda publicou Prece a uma aldeia perdida, poesia longa que corporifica todo o sentimento de exílio e perda de suas origens e raízes da autora, em cima da última frase de Iracema, do José de Alencar, Tudo passa, e nada passará, sobre a terra. A autora publicou mais dois livros infantis, Lig e o gato de rabo complicado, pela Companhia das Letrinhas, e Mig o descobridor, pela editora Recorde.

Ana miranda é uma escritora profissional: fez parte de várias antologias, escreve artigos para jornais ou revistas. Além disso, é pesquisadora e organizadora de publicações: preparou obras de Otto Lara Resende e Vinicius de Moraes. Colabora, desde 1998, com a revista Caros amigos, e, desde agosto de 2004, escreve crônicas no Correio Braziliense, sobre suas memórias da época da construção da capital brasileira. Iniciou recentemente, em abril de 2009, uma série de crônicas memorialísticas sobre a cidade de Fortaleza, onde nasceu, publicadas pelo jornal local, Povo. A escritora decidiu morar na cidade de onde saiu, ainda criança, e onde agora reside.

Foi escritora visitante na Universidade de Stanford em 1996, e fez palestras e leituras nas Universidades de Berkeley, Yale, Darthmouth, de Roma, entre outras. Entre 1999 e 2003, Ana Miranda representou o Brasil na União Latina, em Roma e em Paris.

Seu livro Desmundo foi adaptado para o cinema: um longa-metragem dirigido pelo cineasta de origem francesa, Alain Fresnot, que no entanto explorou mais o lado sociológico do que o do universo feminino apresentado no romance.

Ana Miranda também tem um logo currículo como actriz do cinema brasileiro, em cujos filmes era creditada como Ana Maria Miranda.

Obra literária


Sem Pecado, romance, Companhia das Letras, São Paulo, 1993;

Clarice, novela, Companhia das Letras, São Paulo, 1996;

Que seja em segredo, antologia poética, Editora Dantes, Rio, 1998;

Noturnos, contos, Companhia das Letras, São Paulo, 1999;

Caderno de sonhos, diário, Editora Dantes, Rio, 2000;

Deus-dará, crônicas, Editora Casa Amarela, São Paulo, 2003;

Prece a uma aldeia perdida, poesia, Editora Record, São Paulo, 2004;

Flor do cerrado: Brasília, infanto-juvenil, Companhia das Letrinhas, São Paulo, 2004;

Lig e o gato de rabo complicado, infantil, Companhia das Letrinhas, São Paulo, 2005;

Mig, o descobridor, infantil, Editora Record, Rio de Janeiro, 2006;

Tomie, cerejeiras na noite, infanto-juvenil, Companhia das Letrinhas, São Paulo, 2006.

Retirado de Sapo Saber a 25-03-2011

Comentários