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Bonga, Orelha Negra e Corona aqueceram noite portuense

No festival NOS em D'Bandada, já na sua sexta edição, acaba por assistir-se a um cruzamento de sons, nem sempre cacofónico, de artistas de vários estilos, como se cada zona da baixa do Porto competisse por uma momentânea identidade musical.

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Com mais de 45 artistas em 14 espaços da cidade, foi possível tropeçar, este sábado, no hip-hop dos portuenses Corona, enquadrados pelo fim de tarde no Jardim das Virtudes, para depois passar-se pela música tradicional angolana de Bonga, já noite, no Coliseu do Porto, numa festa popular que varia em oferta de ano para ano e é ultrapassada em público tão-só pelas festas de S. João.

"A ideia é sempre agarrar no passado, aprender com ele e desafiar o futuro", dizia à Lusa Henrique Amaro, programador musical do NOS em D'Bandada, enquanto na Praça dos Leões se dançava reggae, num distanciamento em relação às edições anteriores que explica pela necessidade de apresentar "um desafio anual de surpreender o público com novas propostas".

O NOS em D'Bandada acaba por demonstrar um roteiro da variedade de locais de espetáculo - tanto possíveis como propositados - da cidade do Porto, contemplando tanto jardins como parques de estacionamento, caves, apartamentos convertidos em bares ou bares tornados salas de concertos.

Enquanto a última luz do sol revelava espirais de fumo por entre o público do espaço Maus Hábitos, os naturais de Leiria First Breath After Coma tocavam um 'rock' tão dançável quanto hipnótico, minutos antes de Bonga, no outro lado da rua Passos Manuel, encher o Coliseu até ao último balcão.

"Acabamos por ser público de outras bandas e elas nosso", supunha o vocalista Roberto Caetano, pouco depois do concerto no quarto andar do que já foi um apartamento, comparando o festival a eventos como o Mexefest, em Lisboa, na medida em que "toca-se num lado, depois vê-se a banda de um colega e descobre-se depois uma banda que nunca se ouviu e se queria conhecer".

A par das batidas de hip-hop/rock dos Orelha Negra, que tocariam a partir da meia-noite e meia numa Praça dos Poveiros completamente lotada, Bonga reuniu dentro do Coliseu do Porto tanto público quanto ficaria à porta, entre queixas, avulsas, de que deveria ter atuado na Avenida dos Aliados.

Aos 74 anos, o músico angolano entrou em palco a dançar, raspando o que em Portugal se chama um reco-reco e em Angola um dikanza, para de seguida bater em congas e cantar, já mais rouco, temas que transformariam o Coliseu numa discoteca luandense.

"Eu não sabia que era assim", exclamou o músico, "assim vale a pena", reforçaria, perante um público de todas as gerações que dançava, maçãs-do-rosto em maçãs-do-rosto, ancas em ancas, mãos na base das costas do parceiro, algumas mais a sul, ao som de temas como "Lágrima no Canto do Olho" ou "Mariquinha".

Nascida em 1944, em Angola, Maria Fonseca Costa dizia à Lusa que tinha "a música do Bonga no corpo e na alma", o que a levava a levantar-se da cadeira de rodas para dançar com a família.

"Levanto-me da cadeira pela garra que ele tem a cantar", disse, "e só tenho uma perna!", acrescentou, enquanto Bonga incitava o público a cantar em uníssono.

Já Gil Marinho, 22 anos, duas pernas, assumiria o "amor" pela música de Bonga pela "confusão positiva" que "dá vontade de dançar a noite inteira e inspirou muita música que se faz hoje em Portugal".

"Nunca haveria kizomba nem kuduro sem Bonga", afirmou, classificando o concerto com "nota dez".

O festival prolongar-se-ia pela noite dentro, através até de eventos não programados que a própria organização incita, a partir de uma estratégia, já assumida em edições anteriores, de o tornar imprevisível de ano para ano, de modo a "trocar as voltas", segundo os responsáveis pela programação, tanto ao público como aos estilos musicais que se vão alternando entre cada espaço da cidade.

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