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Florence + the Machine no MEO Arena: Pulmões ao alto, sem cerimónias

De volta à sala lisboeta onde foi feliz no ano passado, Florence Welch teve direito a uma casa bem composta enquanto disparou êxitos, dançou que se fartou e nunca quebrou a sintonia com milhares de adeptos.

Não é qualquer artista que se pode dar ao luxo de voltar a encorajar uma adesão em massa ao MEO Arena depois de ter atuado no espaço do Parque das Nações no verão passado, num dos espetáculos mais concorridos (e elogiados) do Super Bock Super Rock. Florence Welch e a sua banda não fazem a coisa por menos e até estão à vontade para gastar logo três trunfos deste regresso no início da atuação. "What the Water Gave Me", talvez a melhor canção de uma discografia já com alguns picos consideráveis, abriu a noite entre a disseminação de aplausos e uma histeria coletiva à medida da música da britânica. "Ship to Wreck", a fulminante faixa de abertura do último album, "How Big, How Blue, How Beautiful", manteve os ânimos em alta, com um público que não precisava de grande incentivo a tornar-se ainda mais entusiasmado com a correria de Florence de um extremo ao outro do palco. Seria possível ir mais longe? Apesar de tudo, sim, e sem grandes demoras: ao terceiro tema, "Rabbit Heart (Raise It Up)", primeira revisitação do álbum de estreia, "Lungs" (2009), já a cantora ruiva estava entre os fãs das primeiras filas, com repercussões óbvias na euforia destes e dos que a viam metros mais à frente - nas cadeiras, mas já de pé.

Esta agitação dificilmente será novidade para quem tem acompanhado o percurso da britânica por cá desde os tempos da estreia na Aula Magna, em 2010, já de si memorável. E o projeto só tem reforçado um profissionalismo em palco inatacável, da entrega da cantora à coesão da banda (que inclui cordas, metais, percussão, teclados e coros), sem que a precisão e afinco da conjugação de elementos belisque muito o sentido de comunhão do espetáculo. A máquina, mesmo que algo rígida numa atuação com lugares comuns ocasionais (não faltou a bandeira portuguesa no final), mantém-se humana e afectuosa, frequentemente explosiva e, de vez em quando, íntima - ou com o intimismo possível num espaço destas dimensões e dentro dos moldes da música de Florence, assente numa pop enérgica e opulenta.

Quando menos é mais

Ao longo de quase duas horas, o ainhamento ofereceu um desfile equilibrado de alguns dos momentos mais fortes e populares dos três álbuns, por vezes sem grandes desvios do original - "Shake It Out", a confirmar-se como um dos temas mais convencionais -, noutros casos com variações envolventes - "Cosmic Love", numa bela versão quase reduzida a voz e harpa, ou a também despida "Sweet Nothing", mais sugestiva do que no modelo gritado com eletrónica banal de Calvin Harris.

Quando a música e a presença da mestre de cerimónias já são tão expressivas, a pompa visual é praticamente dispensável. Um painel no fundo do palco, com discretas variações de cor ao longo da atuação, foi mais do que suficiente, até porque partilhou protagonismo com um trabalho de iluminação cuidado que favoreceu o vestido esverdeado e transparente de Florence. Exemplos? O maior terá sido o final de "How Big, How Blue, How Beautiful", episódio grandioso, dourado (depois do azulado do início da canção) e bonito, com um jogo de luz e sombras entre o tal painel e a indumentária e o cabelo volumoso da cantora. Se à música podem acusar-se alguns excessos (muito menos críticos nos concertos do que nos discos, admita-se), a cenografia provou que menos pode ser mais.

De resto, não é preciso grande aparato quando a britânica se manteve inquieta, tenha sido a rodopiar como uma bailarina de uma caixinha de música, a entregar-se ao transe de uma feiticeira medieval ou a contorcer-se como uma eventual odalisca dos bosques. Mas encontrou tempo para se dirigir ao público em várias ocasiões, tanto para elogiar a beleza do céu e incitar, qual Madonna ou diva hippe, à profusão do amor (convidando mesmo os espectadores a abraçarem-se e beijarem-se antes de "You've Got the Love") como para recordar tempos menos simpáticos (mas inspiradores) com pelo menos duas ressacas de sabor especialmente amargo.

Tudo a tirar a roupa

Os desafios ao público não se ficaram por aí: Florence pediu que os espectadores tirassem uma peça de roupa e nem precisou de insistir muito para obter resultados (de qualquer forma, a temperatura já estava elevada). Para reforçar a sintonia, só lhe faltou dizer que o público português era o melhor do mundo. Não chegou lá, mas quase, ao sublinhar que tinha sido o mais barulhento das sete noites durante as quais a banda apresentou seis concertos. A declaração de amor pareceu sincera e o sorriso estampado da britânica foi um bom consolo depois das expressões atormentadas em canções como a bamboleante "Delilah", a titânica "Spectrum" (que pode ensinar algumas coisas a Sia) ou a já clássica "Dog Days Are Over", todas sucesso garantido.

Tão ou mais frenético, o encore foi curto mas portentoso: o crescendo regado a acordes e metais de "What Kind of Man" parece ter sido feito para uma sala como o MEO Arena e "Drumming Song" foi um digno remate, memso que por essa altura já fosse legítimo confundi-lo com algum dos temas anteriores. Mas a relativa falta de versatilidade da música de Florence nunca chega a atrapalhar um espetáculo tão seguro, às vezes arrebatador, e muito provavelmente consensual para os milhares para que o testemunharam. Vai mais um em 2017?

Gabriel Bruce, sofredor mas promissor

A abrir a noite, com pontualidade britânica - às 20 horas em ponto -, Gabriel Bruce estreou-se em palcos portugueses e deve ter arrecadado mais alguns fãs. Não tantos, ainda assim, como conseguiria caso tivesse atuado a uma hora mais tardia, já que o horário não o favoreceu ao não contar com uma massa humana tão forte como a de Florence + the Machine. Felizmente, isso não desencorajou o cantautor londrino nem a banda que o acompanhou (na guitarra, baixo, bateria e teclados) enquanto apresentaram, durante quase meia hora, as canções de "Love in Arms" (2013) e de "Come All Sufferers", a editar já em maio. Alicerçado numa voz grave e possante, em reminiscências pós-punk ou blues e numa aliança entre melancolia e delírio, o alinhamento remeteu para Leonard Cohen, Nick Cave ou Billy Idol, dependendo do tema, mas também deixou Gabriel Bruce como um nome capaz de ir além de uma boa coleção de influências. O tom sombrio da música teve contraste na simpatia do britânico, que não se cansou de agradecer, e momentos expansivos como "Freedom" ou a faixa título do novo álbum deixavam vontade de ouvir o que aí vem.

Fotos: Tiago David

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