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Guns N' Roses no Passeio Marítimo de Algés: Eles ainda são os reis lá do liceu

À quarta foi de vez: depois de atuações marcadas por birras ou pela ausência de músicos-chave, o concerto dos Guns N' Roses no Passeio Marítimo de Algés reconciliou-os finalmente com o público português.

Quem espera sempre alcança? Muitos fãs dos Guns N' Roses poderão dizer que sim, embora parte deles tenha esperado 25 anos para voltar a ver o núcleo duro do grupo norte-americano num palco nacional. Mas desta vez, pelo menos, numa noite em tudo diferente da de 2 de julho de 1992 no Estádio José de Alvalade, em Lisboa, a tal em que Axl Rose fez uma birra megalómana ao morder o isco de provocações de Mike Patton, dos Faith No More, banda de abertura do espetáculo juntamente com os Soundgarden.

Sem tropeções, sem assobios e sem interrupções, o regresso dos autores de "Appetite for Destruction" a Portugal, esta sexta-feira, também compensou o entusiasmo apenas moderado (ou para muitos, nem isso) de outras passagens por Portugal - no Rock in Rio Lisboa, em 2006, e no Pavilhão Atlântico, em 2010, com um atraso de 90 minutos -, numa fase em que dos Guns N' Roses originais só restava o vocalista, então acompanhado de uma nova formação.

Com Slash (guitarra principal) e Duff McKagan (baixo) mais uma vez a bordo desde 2016, o mais recente apelo ao público nacional contou ainda com o veterano Dizzy Reed (teclas), Richard Fortus (guitarra rítmica), Frank Ferrer (bateria) e Melissa Reese (teclas) em palco, num convite irrecusável para quase 60 mil fãs (57800, contas provisórias da promotora) que esgotaram o recinto e tiveram de enfrentar longas filas antes e depois da atuação (decididamente, os acessos e a rede de transportes disponível, sobretudo à saída, são uma dor de cabeça, mas neste caso a maior falha do espetáculo não pode ser apontada à banda).

A geração MTV, 25 anos depois

Muito longe dos tempos em que eram presença obrigatória na MTV, nas rádios e nas revistas juvenis (com posters incluídos), além de tema de conversas na cantina ou no pavilhão, os californianos podem orgulhar-se de ter incitado, ainda assim, a um invulgar cruzamento de gerações no Passeio Marítimo de Algés, dos muitos adolescentes de inícios da década de 1990 a um número também expressivo de uma faixa etária recém-chegada à idade adulta, quase todos vestidos a rigor (leia-se com uma t-shirt do grupo ou pelo menos de negro).

A culpa será mais de uma mão cheia de clássicos do que propriamente da dedicação da banda na sua estreia por cá, mas desta vez não faltou entrega ao longo de um concerto que mostrou uma máquina inegavelmente bem oleada. Com uma rodagem de palco aperfeiçoada na digressão atual, "Not in This Lifetime" (título a olhar com humor para desavenças do passado), o espetáculo perdeu em espontaneidade o que ganhou em desenvoltura. O alinhamento não seria difícil de prever para quem espreitou os das últimas datas, optando pela consistência em vez da surpresa, e o público acolheu esse conforto de braços abertos.

"It's So Easy" e "Brownstne", a abrir, como tem sido regra, acenderam o rastilho para uma noite que teve o batismo de fogo com "Welcome to the Jungle", o primeiro grande momento de comunhão entre banda e público depois da euforia da entrada em palco.

Das versões ao erro de casting

Axl, de calças de ganga rasgadas e com uma troca de chapéu e casaco constante ao longo do espetáculo, foi o principal centro das atenções, mas agora humilde o suficiente para deixar os colegas brilhar (e dar-se ao trabalho de os apresentar um a um, com calma). Slash teve um protagonismo quase ao mesmo nível, com solos de guitarra durante e entre as canções que, às tantas, se tornavam já indistinguíveis - não que tenha sido um problema para a maioria dos espectadores. E Duff viveu o seu grande momento ao cantar "New Rose", dos The Damned, uma das várias versões da noite (bem mais reverentes do que criativas) cujo lote incluiu "Black Hole Sun", dos Soundgarden (homenagem ao recentemente falecido Chris Cornell); "Wish You Were Here", dos Pink Floyd; "Whole Lotta Rosie", dos AC/DC; "Speak Softly, Love" (do filme "O Padrinho", entregue a Slash) e, claro, "Live and Let Die", dos Wings (Axl elétrico entre correrias e rodopios) e "Knockin' on Heaven's Door", de Bob Dylan, esta uma releitura que os Guns N' Roses conseguiram tornar sua - e também a mais entoada pelos milhares de espectadores, com considerável distância.

NÃO USAR!!!

Mas tendo mais ou menos versões no alinhamento, a receita do grupo não muda muito, seja a nível rítmico, instrumental ou vocal, assentando num hard rock que teima em não soar diferente do que se conhecia há 25 anos. Mais uma vez, os fãs não se queixam e talvez até seja melhor assim, a julgar por viragens como "This I Love", baladona que explica porque é que "Chinese Democracy", embora muito aguardado (saiu em 2008, 15 anos depois do antecessor), já foi quase esquecido. Algures entre um musical de Andrew Lloyd Webber e um número cantado dos Marretas (se os Marretas não tivessem qualquer ironia), a canção testa a vertente de crooner de Axl mas os agudos extremos casam mal com a mistura já de si adiposa de piano de casino e guitarrada a rematar. Se a nostalgia pode perdoar outros excessos (enfim, num concerto destes não há grandes subtilezas à partida), ouvir "This I Love" com imagens de uma moça roliça de cabelos ao vento no ecrã ao fundo do palco só vem reforçar críticas à masculinidade tóxica e misoginia do universo dos Guns N' Roses (até porque a senhora em questão não foi a única a passear-se por lá com as mesmas poses ao longo do concerto).

As imagens revelaram-se, de qualquer forma, mais contrastantes do que a música, indo das inevitáveis armas e rosas iniciais a cidades futuristas, cenários de guerra, perseguições automóveis digitais, uma espécie de kamasutra de esqueletos (sem grandes subtilezas, lá está), visões galáticas ou um mar entre a calmaria e a tempestade com chuva de pétalas (acompanhamento não muito imaginativo para "November Rain").

Nostalgia implacável

Em "You Could Be Mine", o ecrã mostrou os elementos dos Guns N' Roses em modo ciborgue, um eventual update do Exterminador Implacável, que contou com a canção na banda sonora ao segundo filme (o cruzamento continua a ser das melhores lembranças do grupo). O tema foi ainda um dos que tiveram direito a pirotecnia em palco, além de funcionar como um dos pilares da noite ao lado de outros clássicos como "Sweet Child O' Mine" e "Paradise City", este a fechar as quase três horas de concerto.

Com uma banda tão empolgada como boa parte dos espectadores, sobretudo um vocalista visivelmente emocionado - e que se dirigiu ao público para agradecer e apresentar algumas canções -, a data nacional da digressão "Not in This Lifetime" é bem capaz de ter sido o concerto de muitas vidas (apesar da ausência de êxitos como "Don't Cry" e "I Used to Love Her"). Ou pelo menos um concerto para encerrar de vez um capítulo da adolescência, já que não faltou quem ainda conseguisse deslumbrar-se com um final que serviu fogo de artifício enquanto Slash tocava com a guitarra atrás das costas. Por aqui a tradição ainda é o que era...

Antes dos Guns N' Roses, coube a Tyler Bryant & The Shakedown dar as boas vindas aos primeiros a chegar ao Passeio Marítimo de Algés, ao final da tarde, através de uma mistura segura (embora demasiado convencional) de rock e blues. Mesmo assim, o coletivo de Nashville teve um acolhimento mais caloroso do que Mark Lanegan, cuja apresentação do novíssimo álbum, "Gargoyle", passou praticamente despercebida junto de um público mais entretido com selfies, copos e conversas. Canções nebulosas como "Death's Head Tattoo" não serão as mais compatíveis com um cenário soalheiro e uma multidão de milhares, mas o veterano de Seattle, um dos nomes mais prolíficos e atentos do rock alternativo - de bandas como os Screaming Trees ou Queens of the Stone Age à vasta obra a solo - merecia melhor sorte. Ou talvez seja esse o preço a pagar por não se encostar à nostalgia...

VEJA A GALERIA DE IMAGENS DO CONCERTO (Fotos: Tiago David):

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