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Paul Auster combina material genético e o inesperado na obra "4 3 2 1"

O autor Paul Auster afirmou, em Cascais, que a sua obra mais recente, "4 3 2 1", resulta da combinação de circunstâncias inesperadas com o material genético, pré-existente, que compõe todos os seres humanos.

Paul Auster considerou, num encontro com jornalistas no âmbito do Festival Internacional de Cultura, que o romance procura responder à pergunta "E se...?", delineando quatro caminhos distintos para um mesmo personagem, Archie Ferguson: "Em inglês há o termo 'nature nurture', que surge [da combinação] do ser natural e genético, com a maneira como se é educado ou o ambiente em que se cresce", realidades que "estão interligadas e são impossíveis de separar".

Este foi o mote fornecido pelo escritor norte-americano, de 70 anos, para abordar as questões feitas acerca do processo de escrita do romance, precedido por um hiato de sete anos, em que "a frequência com que algo inesperado acontece" foi, à semelhança de outras das suas obras, o dilema "que sempre o preocupou".

Na opinião de Auster, o princípio de que diferentes circunstâncias conduzem, necessariamente, a pessoas de personalidades distintas, revela a importância de "dar espaço ao inesperado para viver a vida com algum tipo de coerência". Como tal, aquilo a que gosta de chamar "os mecanismos da realidade" difere das crenças "no destino, na fé e na intervenção divina", conceções nas quais o romancista recusa acreditar.

Ao escrever "4 3 2 1", nomeado como candidato ao prémio Booker deste ano, Auster quer provar que "o estranho faz parte da normalidade" e que, no papel de arquiteto das suas narrativas, este "não manipula as personagens", optando por "lhes dar vida" para depois "as seguir, sem as guiar" a um caminho concreto.

No decorrer da conversa, este frisou que "não escolheu tornar-se um escritor", sendo que foi a profissão que o escolheu a ele: "Não se trata de uma opção. (...) Ser um artista de qualquer tipo é como apanhar uma doença da qual nunca se recupera. [Ser escritor] é uma obrigação."

Na ótica de Auster, "o papel [social] da escrita mantém-se o mesmo há 500 anos", algo que se complementa com o processo de leitura, "uma experiência muito íntima" que se faz individualmente. Posteriormente, ressalva que ler histórias "é uma forma excelente de confrontar medos ou ansiedades em relação ao mundo, de modo seguro".

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