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Placebo no Coliseu dos Recreios: Entre a melancolia e a festa, o melhor e o nem por isso

A noite que marcou o regresso dos Placebo a Lisboa, na celebração dos seus 20 anos, provou que a banda britânica continua a ser um caso sério por cá. Mas também reforçou que os seus melhores dias estão (mesmo muito) lá para trás...

De volta à capital portuguesa esta terça-feira, depois de terem atuado no Pavilhão Multiusos de Gondomar no dia anterior, Brian Molko e Stefan Osdal não contaram com nada menos do que um Coliseu dos Recreios a abarrotar para a celebração dos 20 anos do primeiro álbum dos Placebo, de título homónimo.

A noite, no entanto, arrancou (e muito bem) com dois temas do segundo disco da banda, "Without You I'm Nothing". O videoclip original de "Every You Every Me", mantido na gaveta durante décadas antes de ser revelado no ano passado, deu início à celebração e o tema foi entoado sem hesitações pela "imensa minoria" de várias faixas etárias que preenchia a sala.

Outro single clássico, "Pure Morning" assinalou a entrada do grupo em palco com um loop tão hipnótico como quando apresentou, em 1998, um dos álbuns de referência dos Placebo e um dos testemunhos rock mais expressivos e idiossincráticos de finais do milénio - que o digam muitos adolescentes de então, fascinados com a combinação de melancolia e urgência moldada pela ambiguidade das palavras.

Mas quando a atuação parecia estar já tão bem encaminhada, com Molko, Osdal e os quatro músicos que os acompanharam (da bateria aos teclados) em perfeita sintonia numa canção que parece não ter envelhecido, o alinhamento apontou logo depois para outras direções. As mais recentes "Loud Like Love" e "Jesus' Son", apesar de bem acolhidas por um público sempre entusiasta ao longo do concerto, estão longe de figurar entre os maiores feitos de uma banda que tem perdido boa parte do fulgor, mistério e ousadia nos últimos álbuns.

Esse contraste assombrou, de resto, um espetáculo que nem foi tanto uma celebração dos 20 anos de edições a partir de "Placebo" mas uma revisitação de carreira meio genérica, sem grande espaço para a surpresa e ainda menos para tantos temas dos primeiros três álbuns como alguns esperariam - sobretudo tendo em conta que a banda assume não ter grande vontade de regressar a muitas dessas canções e esta digressão seria a derradeira oportunidade de as escutarmos ao vivo.

Fantasmas do passado (remoto ou nem tanto)

A noite contou, assim, com um balanço intermitente entre momentos aos quais valeu a pena voltar, como "Special Needs" e "Soulmates", da vertente mais introspetiva e etérea de "Sleeping With Ghosts" (2003), e canções derivativas e inconsequentes na linha de "Too Many Friends" (que não saiu favorecida numa versão mais lenta, com Stefan Osdal ao piano), "Devil in the Details" ou "Exit Wounds", que pouco ou nada têm para acrescentar ao universo dos Placebo.

Às vezes, os arranjos demasiado homogéneos e acomodados das canções recentes até acabaram por contaminar algumas mais antigas. "36 Degrees" surgiu sem a pujança da versão em disco, numa moldura amansada com uma fração do carisma (embora com encanto suficiente para muitos espectadores acompanharem Molko na enumeração do refrão). "Twenty Years" foi alvo do mesmo golpe, sujeitando-se a uma desaceleração balofa que não a beneficiou.

Quem sentiu falta da efervescência associada a estas canções teve de esperar mais de uma hora, até à altura em que o vocalista decidiu passar da fase melancólica à festiva da atuação. A mistura de estados de alma faz sentido, até porque, como Molko assinalou, os 20 anos da banda contaram com "muitas lágrimas" e "muita diversão". Mas esses dois lados dos Placebo já foram doseados de forma mais equilibrada em concertos anteriores por cá, ainda que a reta final da atuação, a começar com "For What It's Worth" (a crescer consideravelmente ao vivo) e a terminar com "The Bitter End", tenha servido uns muito aprazíveis 20 minutos de descarga. "Slave to the Wage", "Special K" e "Song to Say Goodbye", felizmente sem grandes desvios face ao formato original, também ajudaram à festa e despertaram as reações mais efusivas do público - devidamente acompanhadas por um jogo de luzes e cores menos sombrio, tanto no palco como no ecrã gigante que se encontrava ao fundo deste.

Mesmo assim, o episódio mais memorável da noite talvez pertença à seleção melancólica: "Without You I'm Nothing", o tal tema que teve direito a uma versão gravada com David Bowie, foi recordado com a solenidade merecida e as imagens do cantor (influência mais do que assumida dos Placebo) reforçaram a química entre a banda e o público.

Também de boa memória, os dois encores fecharam cerca de duas horas irregulares com algumas das canções mais aguardadas: "Teenage Angst" e "Nancy Boy", pilares do álbum de estreia, deixaram saudades dos melhores Placebo, entre a euforia, a desolação, a provocação e a ingenuidade. E depois do menos essencial, mas eficaz "Infra-Red" (acompanhado de uma crítica a Donald Trump via maços de tabaco), a banda despediu-se com uma das suas muitas versões aconselháveis: a de "Running Up That Hill (A Deal with God)", de Kate Bush, oportunidade para Molko mostrar a sua faceta mais dramática (menos evidente nos concertos do que em muitos videoclips), oferecendo-se a um grande plano do seu olhar, ainda inquieto e penetrante. Só é pena que essa insolência, tanto do vocalista como da banda, seja hoje tão ocasional no meio de canções cada vez mais indiferenciadas. Teremos sempre os discos, aqueles três ou quatro primeiros discos, mesmo que nem uma digressão como esta tenha muito espaço para eles...

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