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Super Bock Super Rock: Alguém percebeu o hip hop de Future?

Em aposta que ganha não se mexe. Ou pelo menos foi esta a fórmula que o Super Bock Super Rock encontrou para fazer com que o segundo dia, quase todo dedicado ao hip-hop, fosse tão nacional como internacional. Pena que o cabeça de cartaz tenha ficado muito abaixo de um patamar quase sempre elevado...

Se o arranque da tarde se fez com uma aposta surpreendente em termos de horários, com Pusha T a abrir o Palco EDP logo às 17h00, o primeiro grande concerto no Parque das Nações, em Lisboa, esta sexta-feira, surgiu através da poesia e batidas de Keso. O músico veio do Porto para atacar com as palavras presentes em "KSX2016", onde constam "Defeito Sério" ou "BruceGrove", entre mensagens de esperança e reflexões sobre a vida que atravessam todo o seu imaginário, partilhado num Palco LG bem composto.

Pouco depois, mas no palco secundário situado debaixo da Pala do Pavilhão de Portugal, surgiu o novo fenómeno do hip hop nacional, Slow J. Também perante um público em plena comunhão com o artista, o álbum "The Art of Slowing Down" marcou o ritmo para um concerto apoteótico. "Arte" e "Menina (estás à janela)" ofereceram os primeiros acordes e apresentaram a personalidade calma que Slow J exibe em palco. A interatividade com o público é constante, num sinal de grande apreço que este dá à sua afirmação durante este ano. Convém não esquecer no verão passado, o mesmo Slow J atuava no outro palco, ainda sem o álbum lançado, mas já com uma grande falange de fãs que sabiam as letras de cor. Para a consagração da festa, já na reta final fica guardado o tema "Vida Boa", mais uma vez a provar que Slow J é uma promessa com muito para dar ao hip hop português.

Quem também já tem dado muito à música portuguesa são os The Gift. A viver uma nova etapa na carreira, com o lançamento de "Altar", que conta com a produção e colaboração do lendário Brian Eno, a banda de Sónia Tavares trouxe uma lufada de ar fresco na sua fase mais recente. Ainda assim, o concerto acabou por ser morno uma vez que a relação do público com o novo projeto ainda não está totalmente estabelecida e as canções mais recentes dominaram o alinhamento. Destaque para a interpretação do tema com a colaboração do Brian Eno, "Love Without Violins", ou ainda "Clinic Hope". Claro que ficaram a faltar clássicos antigos, apenas com espaço para recordar a música que ainda ecoa no imaginário de muita gente, "Driving You Slow".

Entretanto, o palco secundário continuava a apresentar grandes nomes do mundo do hip hop. Vinda dos Estados Unidos, Akua Naru arrasou e seduziu o público português através da sua poesia e de temas como "The World is Listening" ou o exótico "Poetry: How Does It Feel". Pela segunda vez em Portugal, a rapper afro-americana renovou os votos de regresso e terá somado mais alguns admiradores.

Pouco depois surgia pela primeira vez em palco o novo super projeto que une o Brasil a Portugal, os Língua Franca. Capicua, Emicida, Rael e Valete já trabalham desde o início do ano para dar vida ao grupo que já se materializou num álbum de sucesso dos dois lados do Oceano. Embora o concerto dedicado aos Língua Franca, que foi logo destaque inicial com o single de estreia, "Ela", também houve tempo para interpretações de temas das carreiras a solo de qualquer um dos artistas, como "Vayorken", de Capicua, logrado com um interlúdio interessante de "Popless", dos Guardiões do Subsolo. Também Valete, de regresso com "Rap Consciente", disparou em todos os sentidos no palco principal, num concerto que foi uma celebração da música e do género, como defendeu a última canção, "Amigos".

Future foi anunciado como a grande atração do dia. Se no papel, para quem conhece pouco o rapper norte-americano, prometia - afinal de contas, estamos a falar de um artista que em duas semanas conseguiu meter dois álbuns de estreia no 1º lugar do Billboard 200 e é detentor da digressão mais lucrativa de sempre -, a verdade é que muitos saíram desiludidos.

A surgir em palco inicialmente sozinho, com o MC e DJ escondido do palco, Future não se deixou intimidar pelo palco do MEO Arena. Mas com a chegada da sua equipa, perdeu alguma das atenções e a partir daí todo o concerto começou a perder fôlego. Um início que se tinha mostrado auspicioso, com "Rent Money", "Super Trapper" ou "Choose One", começou tomar outro rumo.

O nova-iorquino quis mostrar tudo aquilo de que era capaz e o que já tinha cantado com outros artistas como Drake ("Jumpman", por exemplo), The Weeknd ("Low Life") ou Rick Ross ("Bugatti"). A verdade é que em relativamente hora e meia percorreu 33 temas cuja compreensão das palavras por parte do público foi mínima. E não podemos evocar aqui a carta da má qualidade sonora do MEO Arena mas sim da dicção do artista, impercetível.

Até a canção que se tornou viral, "Mask-off", deixada propositadamente para o fim, não conquistou o ouvido. Ainda que partilhado com alma por parte dos espectadores na plateia em pé, Future ofereceu um concerto que não deixará grandes saudades.

Felizmente, para o último dia do SBSR o prato forte será Deftones. Bruno Pernadas, Foster the People, Fatboy Slim e Seu Jorge a interpretar David Bowie são outras das escolhas do cartaz que merecem ser vistas nesta despedida ao Parque das Nações, este sábado.

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