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The Cure no MEO Arena: Quanto mais pop, melhor

Quase três horas de concerto não é para todos. Mas as que marcaram o regresso dos Cure a Lisboa, esta terça-feira, nem sempre conseguiram separar o essencial do acessório, clássicos intemporais de curiosidades datadas.

Por esta altura, o formato não é novidade. Afinal, embora a banda de Robert Smith tenha voltado a visitar palcos nacionais com a "The Cure Tour 2016", o modelo do espetáculo pouco difere dos últimos que trouxe a Portugal, no então festival Optimus Alive, em 2012, e no então Pavilhão Atlântico, em 2008. Os fãs até terão ficado mais bem servidos nessas duas ocasiões, já que ambas contaram com mais de três horas de duração face às duas horas e quarenta da noite da passada terça-feira.

Ou não necessariamente, uma vez que quantidade nem sempre é sinónimo de qualidade e a atuação mais recente foi exemplo disso. Mais de 30 canções pode ser um prato cheio, e um investimento mais recompensador para os fãs acérrimos do que muitos festivais, mas tal como na passagem anterior dos britânicos pela sala do Parque das Nações, o interesse do alinhamento e, consequentemente, o entusiasmo do público foi muito variável.

O arranque, por exemplo, mostrou-se demasiado morno para a notória expectativa de uma sala bem composta tanto na plateia como nos balcões. "Open" e "All I Want" estão longe de figurar entre os maiores feitos da banda e infelizmente estiveram longe de ser os únicos temas da colheita menos proveitosa a conquistar honras de revisitação ao longo da noite.

Revisitação, de resto, é o máximo que uma digressão dos Cure pode oferecer em 2016. Apesar de o grupo ainda ir apresentando material novo, o maior chamariz de um público heterogéneo, que atravessa gerações - talvez não dos 7 aos 77 mas facilmente dos 17 aos 57 - é a invejável sequência de álbuns editados nos anos 1980, do promissor "Seventeen Seconds" (1980) ao aclamado "Disintegration" (1989). Se no caso de outros contemporâneos (e conterrâneos) do grupo habitualmente bem acolhidos por cá, como os Depeche Mode, há espaço para a novidade e até pontos altos com canções recentes, mesmo que o presente e provavelmente o futuro não fujam muito a uma identidade já cristalizada, nos Cure a viagem é claramente em direção ao passado, a nostalgia pela nostalgia. E quando esse exercício é assumido, quem marca presença num concerto deles já sabe ao que vai.

Mesmo dentro dessa lógica, que não garante grandes surpresas à partida, o arrebatamento ainda pode fazer parte do menu. E na noite passada chegou, mas tardou, com os maiores trunfos guardados para os dois últimos encores dos três que a atuação ofereceu. Não que tenham faltado momentos a registar até aí. "In Between Days" e "Pictures of You", de seguida, ficaram entre os mais aliciantes da primeira hora, quase toda ancorada na faceta densa e nebulosa dos Cure e devidamente acompanhada por imagens a condizer no ecrã ao fundo do palco (entre cenários de guerra, visões do espaço ou a banda forrada em tons sombrios). A postura dos cinco músicos também pareceu guiar-se pela introspeção: Robert Smith manteve a pose estática, dirigindo-se ao público para agradecer e pouco mais (atirando um "obrigado" logo ao início), Reeves Gabriels (guitarra), Roger O’Donnell (teclados) e Jason Cooper (bateria) estiveram ainda mais fechados em si mesmos e a exceção foi mesmo Simon Gallup (baixo), que não se cansou de se movimentar por todo o palco com alguma teatralidade.

Muito aquecimento, alguma festa

Mais do que profissionalismo, a sensação que ficou por vezes foi a de comodismo, com a banda a limitar-se a debitar temas que conhece de trás para a frente sem grandes variações. Não admira que, a espaços, grande parte do público também se tenha limitado a aplaudir cordialmente, mantendo-se interessado mas não especialmente estimulado - foi bom ver, no entanto, o respeito pela maioria das canções, sem conversas de café pelo meio, e só a ocasional euforia de telemóveis em riste, para filmar um ou outro tema mais popular, terá prejudicado a experiência de quem se encontrava mais distante do palco.

Se a espiral sonora, com direito a espiral visual, de momentos como "One Hundred Years" ou "End" foi sugestiva, ao mergulhar num pós-punk mais assente em novelos instrumentais intrincados do que na voz de Robert Smith, a redundância ameaçava tomar conta da noite quando a atuação chegou a "Want" ou "Burn", já no primeiro encore. E aí só mesmo uma canção perfeita como "A Forest" conseguiu mudar a imagem de copo meio vazio que o espetáculo chegou a insinuar, ao apostar numa atmosfera monocromática. Mas o single de 1980 devolveu vertigem à atuação, com a banda a esmerar-se num final que parecia não querer ser definitivo, até porque o público não parecia querer deixar que a canção acabasse tão cedo. Foi, finalmente, o primeiro grande episódio de sintonia entre o grupo e os espectadores, e fechou o primeiro encore em modo apoteótico.

O que se seguiu comprovou que o melhor estava mesmo guardado para o fim, com uma banda revitalizada na propulsão imponente de uma "Fascination Street" quase shoegazer, um oásis de texturas complementadas pela explosão de cores garridas em palco. Igualmente impressionante foi a injeção de vitamina pop de "Friday I'm in Love", "Just Like Heaven" e "Boys Don't Cry", facilmente a melhor sequência da noite, apesar de também ser das mais óbvias - já tinha sido o ponto de ebulição no concerto de há seis anos e percebe-se porquê, ao atingir diretamente o coração de uma grande fatia do público.

A bipolaridade do concerto foi reforçada pela reta final, outro desfile de êxitos no qual muitos espectadores (tanto da plateia como dos balcões) finalmente gritaram, dançaram e entoaram letras de várias vidas em uníssono. E até a banda pereceu outra, então já não anestesiada mas dominada por uma energia transbordante e contagiante. "Lullaby" não é canção dada a grande alvoroço, mas foi muito bem recebida, e "Hot Hot Hot!!!", "Let's Go to Bed" e sobretudo "Close to Me" e "Why Can't I Be You?" encarregaram-se de fazer uma festa de terça à noite que só pecou por tardia. Tivessem alguns destes temas marcado a primeira metade do espetáculo, num alinhamento mais ágil e bem doseado, e poderíamos estar a falar de um dos grandes concertos de 2016. Assim fica uma despedida em alta para uma noite esquizofrénica, entre picos de intensidade e segmentos olvidáveis. Mas tal como as últimas atuações dos Cure por cá, deixou claramente a porta aberta para mais um regresso - até porque há sempre uma imensa minoria pronta a voltar a este catálogo.

Alinhamento:

Open
All I Want
Push
In Between Days
Pictures of You
The Hungry Ghost
A Night Like This
The Walk
Primary
Shake Dog Shake
The Blood
The Caterpillar
Lovesong
From the Edge of the Deep Green Sea
One Hundred Years
End

Encore 1
Step Into the Light
Want
Burn
Play for Today
A Forest

Encore 2
Fascination Street
Freakshow
Friday I'm in Love
Just Like Heaven
Boys Don't Cry

Encore 3
Lullaby
Hot Hot Hot!!!
Let's Go to Bed
Close to Me
Why Can't I Be You?

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