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"A Guerra dos Tronos": George R. R. Martin explica violência sexual

As polémicas em torno de "A Guerra dos Tronos" têm alimentado discussões nas redes sociais. Em entrevista à Entertainment Weekly (EW), George R. R. Martin deixou a sua perspetiva sobre a violência sexual na saga "As Crónicas do Gelo e do Fogo".

AVISO: ARTIGO COM SPOILERS

Antes de ler a explicação do autor é importante ter em mente que nem tudo o que acontece na série televisiva corresponde à versão dos livros e que os episódios não são escritos por R. R. Martin. A título de exemplo, a recente violação de Sansa Stark não ocorreu nos livros.

Na conversa que teve com a EW, George R. R. Martin explica que se baseou na sociedade medieval, à qual juntou alguma fantasia.

Leia aqui o texto na Íntegra escrito pelo autor de "As Crónicas do Fogo e do Gelo":

"Os livros refletem uma sociedade patriarcal baseada na Idade Média, onde não havia igualdade sexual. Foi uma época baseada em classes sociais que dividia as pessoas em três grupos. As ideias sobre os papéis das mulheres eram muito fortes. Uma das acusações contra Joana d'Arc, que foi queimada na fogueira, era que ela usava roupa masculina,o que tinha muita importância. Havia, é claro, algumas mulheres fortes e competentes. Mas não altera a natureza da sociedade. E se olharmos para os livros, os meus heróis e as personagens são todos desajustados. São discrepantes. Não se encaixam nos papéis que a sociedade tem para eles. Eles são deficientes, bastardos e coisas destruídas - um anão, um rapaz gordo que não pode lutar, um bastardo e mulheres que não se encaixam confortavelmente nos papéis que a sociedade tem para elas (embora também existam personagens que se enquadram - como a Sansa e a Catelyn).

Haverá pessoas que vão dizer, 'Bem, ele não está a escrever a história, ele está a escrever fantasia, ele colocou dragões, por isso deveria ter feito uma sociedade igualitária.’ Só porque há dragões não significa que se pode pôr qualquer coisa como querem. Se os porcos podem voar, então esse é o vosso livro. Mas isso não significa que também querem que as pessoas andem com as mãos em vez de andarem com os pés. Se vão fazer [um elemento de fantasia], é melhor fazer apenas um deles, ou alguns. Eu queria que os meus livros fossem fortemente baseados na história e que mostrassem a sociedade medieval como era, mas também queria escrever uma série de ficção e de fantasia. A maioria das histórias retratam o que eu chamo de 'Disneyland Middle Ages' - existem príncipes, princesas e cavaleiros de armadura brilhante, mas não mostram o que essas sociedades significaram nem como funcionavam.

Tenho milhões de leitoras que adoram os livros e que veem ter comigo e que me contam o encanto que têm pelas personagens femininas. Algumas gostam da Arya, outras preferem a Dany ou a Sansa, algumas amam a Brienne e outras a Cersei - há milhares de mulheres que adoram a Cersei, apesar das suas falhas. É um argumento complicado. Para ser não-sexista, precisava de retratar uma sociedade igualitária? Isso não é a nossa história; é algo para a ficção científica. E América do século XXI também não é igualitária. Há ainda barreiras contra as mulheres. É melhor do que o que era. (...)

E depois há toda a questão da violência sexual, pela qual tenho sido criticado. Estou a escrever sobre guerra, tal como quase todas as fantasias. Mas se quiser escrever sobre a guerra, e incluir apenas todas as grandes batalhas e ter só heróis a matar um monte de orcs e coisas do género e não retratar [a violência sexual], então há algo fundamentalmente desonesto. Violação, infelizmente, ainda é uma parte da guerra nos dias de hoje. Não é uma forte realidade da humanidade, mas acho que não devemos fingir que não existe.

Quero retratar a luta. O drama sai do conflito. Se retratarem uma utopia, então provavelmente escreveram um livro muito chato”.

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