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Colin Hanks «siderado» com a qualidade da escrita de «Fargo»

É um dos protagonistas de uma das séries mais faladas do momento e, embora muitos o conheçam por ser filho de Tom Hanks, já é pai tanto na realidade como na ficção. Colin Hanks é também um dos polícias de "Fargo" e não poupa elogios à produção inspirada no filme homónimo dos irmãos Coen.

De que forma se preparou para este papel?
A única preparação foi trabalhar no sotaque do Minnesota. O Gus não é propriamente um polícia competente. Ele está fora do seu meio e longe do seu espaço natural, não tive de efetuar um treino de polícia. De facto, acabei de fazer as coisas de uma forma desajeitada para ter a percepção que o Gus está fora do seu meio. A nível de preparação, com o professor de dialecto, trabalhei os momentos mais subtis no seu discurso que indicavam que ele tinha um sotaque do Minnesota.

Como foi interpretar este personagem?
Houve momentos onde foi frustrante interpretar Gus na sua inabilidade de desempenhar as suas funções. Mas gostei do facto de ter feito um erro grave e passar o tempo melindrado por este acontecimento, tentando corrigir, da pior forma, o seu erro. Isso apelou-me quando li o argumento do episódio-piloto.
Atualmente os actores fazem cada vez mais a transição do cinema para a televisão.

O que o motivou a dar o salto para o pequeno ecrã?
Hoje em dia um trabalho de representação é um trabalho de representação. Não vejo grande diferença se é na televisão ou no cinema, para mim um trabalho é um trabalho. É uma série de televisão? OK, óptimo. Qual a sua duração? É um filme? Quando tempo vai demorar a rodar? De certa forma, os projetos são semelhantes.
Vejo a diferença sobretudo na qualidade das produções televisivas. São imensas as séries que não estão enclausuradas nas velhas regras da televisão. O nosso programa é diferente. É uma série de dez episódios. Tem príncipio, meio e fim, e nessa forma é como se fosse um filme de dez horas. É necessário tempo para contar a história e, por outro lado, não segue as regras e introduz oito protagonistas principais nos primeiros dez minutos. Interpreto um personagem regular e só apareço em cena no minuto 50 do primeiro episódio.
A narrativa moderna nas séries é muito mais descomprometida e não está presa pelas regras do passado, e aprecio este modo de atuação. Gosto do facto de que atualmente podemos investir o tempo nestes personagens e conhecê-los melhor. E não é uma forma banal a nível interpretativo ou narrativo. Nós temos tempo para criar tal como se estivéssemos a rodar um filme, mas neste caso temos nove horas em vez de apenas uma hora. É muito salutar para mim. Preocupo-me sobretudo com a escrita e os personagens. Não me interessa se é um filme ou televisão, é o que for melhor.

Como foi trabalhar no frio de Calgary e que efeitos o tempo teve na sua performance?
O frio, neve e as temperaturas gélidas tornam-se num personagem no universo de “Fargo” e temos de ter estes elementos. O frio afeta todas as facetas da vida quando estamos lá. Adoro Calgary, é uma grande cidade. Gostei do tempo que passei lá. Gravar e filmar em temperaturas tão frias é muito complicado. É difícil quando rodamos à noite e são três da manhã e está um grau centígrado. As condições são difíceis, não só para os atores como também para a equipa da rodagem que protegia o equipamento com cobertores eléctricos.
É um teste difícil, mas em termos de trabalho de interpretação faz parte do “show”. A ironia é que, por vezes, temos de interpretar como se estivesse uma temperatura mais quente. Temos de fazer o que conseguimos e sermos amigos da direção de guarda-roupa, eles dão-nos todo o tipo de vestuário quente.

Como foi contracenar com Joey King [interpreta a filha de Gus]?
No primeiro dia de filmagens, virei-me para o Noah [Hawley, criador da série] e os outros produtores e disse-lhes que ela era mesmo boa atriz. E é jovem, faz isto há muito tempo, de certa forma tem mais traquejo do que eu. Para mim é uma óptima experiência. É a primeira vez que interpreto um pai. Sou pai na vida real, tenho dois filhos. Foi simpático representar o papel de pai perante uma criança mais adulta em vez de ser pai de uma criança de três anos e um bebé de dez meses. A Joey é muito boa e foi fácil construir a relação: o “Gus” é o pai, mas eles aprendem um com o outro e ela guia-o bastante na forma como ele tem de lidar com as circunstâncias onde se encontra e o que está a passar. Gostei da beleza e da simplicidade da relação, não é muito diferente de um contacto real entre um pai e uma filha. Aprendemos coisas todos os dias com os nossos filhos. Foi interessante desempenhar um papel nesta atmosfera. A interação com a filha torna o Gus mais focado e impele muita da acção que ele acaba por ter ao longo da série.

Teve margem de desenvolvimento no seu personagem?
Tive uma conversa com o Noah muito antes de iniciarmos a rodagem, para tentar perceber como seria a série, e não a nível de fios narrativos. Só queria ter uma ideia se seria uma minissérie fechada e o que iríamos fazer. O Gus é um tipo bem-intencionado que está fora do seu elemento e não é necessariamente um polícia que salva vidas, é mais um agente de serviço comunitário. Isso é o que tinha para trabalhar até ler os guiões e aí delirei só de ler o que o Noah escreveu sobre o personagem. E depois descobrimos o porquê do Gus ser como é através da história em redor do seu passado. Após a série “Dexter”, onde o meu personagem tinha diálogos com uma figura que era fruto da sua imaginação, estou consciente que apenas preciso de saber quais são as cenas e os diálogos que interpreto no momento. O resto resolve-se com a magia da televisão ou dos filmes. Para mim, tento representar os ritmos e as emoções que se conectam de uma certa forma.

O que faz para passar o tempo fora da rodagem?
Tento ser fiel a um princípio quando filmo nos locais. Encontro sempre uma boa desculpa para sair do hotel e fazer algo que seja mais do que beber fora. Sempre que viajo trago comigo uma mesa portátil de discos, mas não levo comigo os discos e vou às lojas locais de vinyl. É um modo curioso de apalpar o local onde estou a filmar e coloco uma etiqueta no disco com o nome da terra onde comprei o disco. A ironia é que um dia terei tantos discos que vou ser obrigado a ficar dentro de portas para conseguir escutá-los a todos.

Como foi trabalhar com um casting tão fantástico? Sentiu a pressão de estar a par destes excelentes actores?
Ficámos siderados com a qualidade de escrita da série. Foi a primeira coisa que dissemos todos, e a sorte que tínhamos de conseguir desempenhar estes enredos e estarmos envolvidos. E estou a falar do Billy Bob [Thornton], quando me encontrei com ele em Calgary. Disse o mesmo com o Martin [Freeman] e outros colegas do elenco. Estou contente que possamos participar nesta série. É uma ocasião rara participar em algo tão bom como está escrito nas páginas do guião.
Quando o material é tão bom facilita-nos o trabalho. Quando uma pessoa é tão boa como o Billy Bob, o Martin, o Bob Odenkirk ou a Allison Tolman, isso facilita o meu trabalho. Não quero dizer que foi um passeio porque não deixou de ser um desafio e tivemos de trabalhar no duro. E pode ser por vezes frustrante e outras vezes não. Quando alguém diz “acção” e estamos a trabalhar é a melhor parte do dia. É a parte que todos queremos fazer.
Eles não nos pagam para isso. Eles pagam-nos para esperar, para ir para as localizações, mas a parte da representação é o que todos nós desejamos fazer. Quando estamos rodeados de tantas pessoas talentosas. E penso que toda a gente na série é incrivelmente talentosa, do Billy Bob até aos dois miúdos que interpretam os filhos de Hess, literalmente são todos talentosos. Tudo se torna muito divertido. É um prazer participar e é uma delícia visionar o que todos fazem.

@Jorge Pinto

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