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Crítica "Narcos" (T3): Pablo Escobar disse adeus, mas o vício continua

A terceira temporada de "Narcos" estreia esta sexta-feira na Netflix. E a julgar pelos primeiros quatro episódios, é tão viciante como as anteriores.

(Atenção: Este texto contém spoilers da primeira e segunda temporadas de "Narcos")

O que preferia?

Ter um negócio ilegal multimilionário, mas sem interferências da justice durante seis meses para poder faturar o que quiser. No final desse período teria de cumprir uma pena simbólica, mas poderia ficar com todo o dinheiro faturado até então, tornando-se completamente legal e passível de ser usado como bem entendesse, sem lavagens, sem chatices.

Ou então... poderia continuar a faturar para sempre, mas com a justiça à perna.

É esta a premissa da terceira temporada de "Narcos", mas é também mais do que isso.

"Narcos" é uma janela voyeurista para as vidas desmesuradas do cartéis de Medellin e Cali, sendo que as duas primeiras temporadas estão centradas em Pablo Escobar, cabeça do cartel de Medellin, que após a sua morte deixa o caminho livre para o cartel de Cali criar o maior império de tráfico de drogas, chegando a controlar 90% do mercado de cocaína mundial.

"Narcos" é também um jogo de extremos implícitos nos bastidores do cérebro do espectador.

Há uma fantasia/fetiche no desfrutar em segunda mão a vida e morte de Pablo Escobar e a relação passivo-agressiva do “não quero olhar para estes monstros, mas não consigo parar de o fazer”. Queremos ver até onde é possível espalhar o caos e pânico, desde que não seja no nosso bairro.

Consegue a terceira temporada voltar a prender, agora que não possui uma personagem com a força gravítica de Escobar? Consegue, mas por outros meios.

O jogo mantém o mesmo tabuleiro mas mudam os jogadores e as estratégias. Ao contrário do cartel de Medellin, que dava uso à intimidação e violência, o cartel de Cali organiza-se como uma grande empresa, movendo a sua influência nos elevados estratos corporativos. Gilberto Rodriguez - o homem no topo do cartel - era alguém que importava conhecer se a pretensão era estar incluído nos negócios essenciais.

Daí a intenção de Gilberto Rodriguez legitimar o seu negócio, decisão que não agrada a todos, muitos menos ao Agente Peña, cuja promoção pós-Escobar o retira do trabalho de campo e o coloca nos corredores do poder onde as balas vêm de fato e gravata, em vez de camisas com motivos tropicais, ornamentadas com fios de ouro.

E por falar em roupa... Tal como nas temporadas anteriores, a atenção ao guarda-roupa é exemplar, a série, por vezes, parece querer-nos tocar no ombro para discretamente nos chamar atenção para isso, ao misturar as suas imagens com as de arquivo.

Antes que o Galo de Barcelos venha dar umas bicadas, é importante referir a interpretação de Pêpê Rapazote como Chepe Santacruz Londoño, que tem provavelmente a melhor cena de todos os tempos com uma contagem decrescente - ficamos logo perceber quão teso o gajo é.

A terceira temporada de "Narcos" é suficientemente parecida e simultaneamente diferente das anteriores para nos fechar um fim de semana inteiro em casa, colados ao Netflix e papar tudo de uma só vez para a seguir nos deixar a agonizar durante mais um ano.

Por falar nisso, a quarta temporada já está confirmada.

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Cinemic

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