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Festival da Canção falhou na promoção de Portugal, diz estudo

Portugal falhou na promoção do país através do Festival da Canção, conclui um estudo da Universidade Lusófona de Humanidades e Tecnologias, cujas conclusões serão divulgadas quinta-feira, assinalando os 50 anos da participação portuguesa no festival.

“Nunca houve enquadramento político e financeiro para potenciar a exportação da imagem de Portugal a nível internacional”, disse à Lusa Jorge Mangorrinha, coordenador de uma investigação para apurar “Que imagem do país a televisão do Estado tem exportado através do Festival da Canção?”.

O festival que a RTP produziu pela primeira vez em 1964, “com a aprovação e estímulo do Governo de [Oliveira] Salazar”, pretendia, segundo Jorge Mangorrinha, contribuir “para a melhoria da imagem externa do país e do regime”. A resposta, acrescenta o investigador, “não podia ter sido pior, pela rejeição à política portuguesa”.

Por cá, porém, como em muitos países, ficava instalado o “bichinho” do festival que prendia, em frente ao televisor, milhões de pessoas de vários países.

O festival “passou a funcionar como o grande acontecimento na área da música ligeira portuguesa, consolidando ou abrindo carreiras”, pelo menos até ao surgimento de outros concursos televisivos, refere o estudo a que a Lusa teve acesso.

Apesar de algumas faltas de comparência (1970, 2000, 2002 e 2013), Portugal é “o país que participa há mais anos sem nunca ter vencido”, refere o estudo, concretizando que, em 50 anos, “apenas nove canções ficaram dentro do top 10 das posições finais”.

Tal aconteceu, não por falta de qualidade dos cantores portugueses mas porque, “para ganhar o concurso, havia que promover poderosamente uma canção, organizar cocktails, distribuir pastas pejadas de informação e negociar entre delegações” e, por outro lado, manifestar vontade de organizar uma edição do festival, o que “podia ter sido uma oportunidade de assumir um papel significativo para a música portuguesa e para um impulso turístico”.

O estudo salienta, porém, que “isso nunca foi previamente articulado com os serviços turísticos do Estado”, deixando passar a oportunidade de promover Portugal no concurso transmitido na televisão, na rádio e na internet, e que pode “atingir uma audiência de mil milhões de pessoas em simultâneo, curiosamente o mesmo número de turistas em todo o mundo”, pode ler-se no documento.

Para os investigadores, “hoje não basta a imagem de um disco ou de um vídeo”. Trabalhar para a criação de uma imagem reconhecida do destino Portugal através do festival da canção, “passará por fazer apelo aos atributos dos produtos nacionais", por promover “uma crescente procura turística e interesse pela música portuguesa”.

Para isso, Jorge Mangorrinha defende no estudo “uma estratégia conjugada entre interesses públicos e privados” que aborde, por um lado, o papel das canções que representam o país, o papel da RTP e os dos parceiros (como editoras ou empresas) e entidades “como o Ministério dos Negócios Estrangeiros e o Turismo de Portugal”.

O estudo, com mais de 700 páginas, foi desenvolvido na Universidade Lusófona de Humanidades e Tecnologias e teve como parceiros logísticos a Rádio e Televisão de Portugal, a Sociedade Portuguesa de Autores e a Hemeroteca Municipal de Lisboa.

As conclusões do estudo coordenado por Jorge Mangorrinha são apresentadas quinta-feira, numa sessão da Sociedade Portuguesa de Autores, em Lisboa, assinalando os 50 anos do festival, que se completam em fevereiro.

@Lusa

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