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"Terror Studios": Quando o Estado Islâmico se inspira em "Survivor" e "Assassin's Creed"

Se o terrorismo está na ordem do dia em muitos filmes, séries e videojogos, "Terror Studios" mostra que Hollywood também alimenta a máquina de propaganda do Estado Islâmico. O resultado é um documentário desconcertante que estreia esta segunda-feira, às 22h00, no Odisseia.

Dos jihadistas que combatem com uma câmara GoPro na cabeça ao trabalho de pós-produção capaz de ombrear com o último blockbuster, os vídeos promocionais do ISIS contam com uma sofisticação cada vez mais reforçada e que apanhou de surpresa Alexis Marant. O realizador francês com vasta experiência documental (tem já mais de duas dezenas de títulos no currículo) considera revolucionária a nova forma de fazer propaganda do Daesh, motivo que o levou a acompanhar como evoluiu ao longo dos últimos dois anos.

Ao longo de uma hora, "Terror Studios" faz o retrato de uma rede de comunicação que além da produção de vídeos envolve ainda a religião, imprensa escrita, rádio e notícias locais, contando com mais de 30 gabinetes em vários países.

Em entrevista ao SAPO Mag, Marant explica o que esteve por detrás da aposta do Canal+ que estreia em Portugal no Odisseia, a marcar o arranque de uma semana temática dedicada ao terrorismo - vincada pela exibição de um documentário todas as noites até sexta-feira.

"Terror Studios" será talvez o olhar mais dominado pela ficção, ao convocar cenas de filmes como "Estado de Guerra" e "Sete Pecados Mortais", imagens de videojogos na linha de "Assassin's Creed" e "Call of Duty" ou até de reality shows da escola "Survivor", todos exemplos que o Estado Islâmico não só cita nos seus vídeos promocionais como recria frame a frame. Mas as sequências de violência destas versões, da morte de agentes do ISIS em combate à execução de jornalistas ocidentais, têm a particularidade de ser reais e não fictícias, por muito que os rituais de alguns momentos se equiparem ao processo de direção de atores ou que a elaborada fase de montagem tenha o apuro técnico de uma superprodução hollywoodesca.

Alexis Marant

SAPO Mag - Já dirigiu vários documentários. O que o levou a apostar no ISIS desta vez e no ângulo da propaganda em particular? Alexis Marant - O ISIS conseguiu encontrar uma forma nova de fazer propaganda, no modo como a criaram e naquele como a transmitiram. Acho que houve mesmo uma revolução na forma como comunicam e pareceu-me que essa mudança merecia atenção. Quando começámos a procurar vídeos do Estado Islâmico esse foi logo um elemento no qual reparámos e que nos atraiu, por isso tínhamos de falar disso e continuar a investigar.

Como conseguiu falar com tantos elementos do Daesh e fazer com que aceitassem ser filmados?
Contactei algumas pessoas que já tinham feito a ponte com grupos jihadistas antes e através delas persuadi alguns elementos a exporem-se em frente às câmaras [mas com o rosto ocultado]. Só através de intermediários é que consegui ganhar alguma confiança da parte deles.

Essas interações surpreenderam-no de alguma forma?
Já suspeitava que iria encontrar muitos estrangeiros na máquina de propaganda do ISIS, mas nunca pensei encontrar tantos e muito menos que um dos principais responsáveis já tivesse trabalhado em Hollywood. Não julguei que pudesse ir tão longe...

Já mostrou o documentário a esses contactos?
Não fizemos questão que eles vissem o resultado mas sabemos que alguns elementos o viram. Não recebemos elogios nem ameaças, o que provavelmente confirma que escolhemos o ângulo certo para abordar o tema. Tentámos fazer um trabalho sério e julgo que eles concordaram, uma vez que não nos disseram que tínhamos alterado de alguma forma o que eles pretendiam dizer.

Como olha para o retrato do terrorismo islâmico na ficção, em particular nos filmes e séries norte-americanos?
Acho natural que Hollywood e alguns videojogos queiram retratar terroristas, uma vez que também refletem vários outros aspectos do nosso mundo. Mas o problema de Hollywood não está em fazer o retrato do terrorismo, mas em reduzir muito personagens muçulmanas a essa questão, o que compromete um olhar positivo, ou pelo menos equilibrado, dessas comunidades.

Como "Terror Studios" mostra, a máquina de propaganda do Daesh está cada vez mais avançada a nível técnico. Até onde acha que poderá ir?
Não faço ideia, mas sei que eles estão muito empenhados em conseguir o equipamento mais versátil e avançado, tal como profissionais de outras áreas ligadas à tecnologia de topo. E isso nota-se tanto no equipamento, nas câmaras, como na pós-produção: toda a componente de efeitos especiais, design gráfico...

O terrorismo, e sobretudo a jihad, é um tema que quer continuar a desenvolver?
Nem por isso, gosto de ir mudando as temáticas e não pretendo tornar-me um especialista no ISIS. Mas ainda acho que há mais elementos novos, ou novas perspectivas, que podemos encontrar em relação ao ISIS e a outros grupos terroristas. Por isso até gostava de fazer outro filme relacionado com este, mas não deverá ser nos próximos dois anos.

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