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"The Walking Dead": Estivemos à conversa com Daryl, Negan e um dos pais da série

Terror, zombies e morte não serão os temas mais apetecíveis para discutir numa tarde soalheira em Lisboa, mas a conferência de imprensa com dois atores e um produtor de "The Walking Dead" foi temperada com algum humor - mesmo que ninguém tenha revelado quem vai rir por último na popular série de culto.

"Ando a passear com dois miúdos", confidencia Greg Nicotero no final do encontro com os jornalistas no Hotel Ritz, em Lisboa, na tarde desta quarta-feira. Os "miúdos" em causa são os habitualmente ameaçadores Jeffrey Dean Morgan e Norman Reedus, que mais de meio mundo conhecerá como Negan e Daryl, respetivamente, duas das personagens principais de "The Walking Dead". A dupla tem percorrido várias capitais europeias com o produtor executivo ao longo desta semana, no âmbito da The Walking Dead Euro Tour, digressão à qual se juntará Andrew Lincoln (Rick) no final do dia já no Teatro Tivoli BBVA, para um encontro com os fãs de entrada livre e lotação esgotada.

A julgar pela forma como os norte-americanos interagiram com os jornalistas, a conversa com os adeptos da série do AMC (exibida em Portugal na FOX) e da banda desenhada que a inspirou não será menos do que descontraída. Em vez da pose intimidante do vilão tagarela que deu novo fôlego à saga, Jeffrey Dean Morgan mostra um sorriso aberto, às vezes quase tímido, e mantém um discurso menos palavroso mas certeiro. Já Norman Reedus reforça a pose de eterno adolescente rebelde que tornou a sua personagem numa das mais icónicas, tanto ao sabotar o discurso dos colegas, afastando o microfone, ou quando não resiste atender o telemóvel de uma jornalista que gravava a conferência na sua mesa. "Está lá? Ela agora não pode atender, liga mais tarde", dispara com um óbvio ar de gozo para uma tia apanhada de surpresa.

A atmosfera das gravações, contam, não costuma ser muito diferente. As provocações entre Reedus e Lincoln, por exemplo, já fazem parte da rotina. "O Andrew deixou a minha mota num barco e empurrou-a para o meio de um lago. Mas noutra altura enchi-lhe a rulote de galinhas", recorda o ator que encarna Daryl. Por outro lado, Morgan considera-se um "sortudo" por poder encarar as gravações mais como diversão do que como trabalho, comparando a experiência com a de outra série que se "arrastou" por várias temporadas e na qual já ninguém se mostrava motivado ("The Good Wife"?).

Norman Reedus

O que é que Negan tem?

Mas a brincar, a brincar, há tempo para falar de coisas sérias. Trágicas, até, como o muito polémico ponto de viragem da sexta para a sétima (e atual) temporada. Com a entrada de cena de Negan, "The Walking Dead" disse adeus a Glenn e Abraham, e a morte do primeiro foi especialmente dolorosa para uma legião de fãs. Mas para os atores também. "Isso não foi nada divertido", realça Reedus. "Estávamos todos a chorar, ninguém precisou de fingir. Até os operadores de câmara choraram", sublinha.

"Entrar na série e ter logo um monólogo de doze páginas foi duro", explica Morgan. "Senti-me um idiota. Lembro-me de pensar que nunca iria conseguir integrar-me depois de fazer uma coisa tão horrível", refere a propósito dos dois assassinatos mais memoráveis de Negan até agora.

"O Jeffrey trouxe muitas nuances a esse momento e foi fascinante observá-lo", elogia Nicotero, que vê no carisma e presença do ator um dos pilares dos dois dias de gravações "emocionalmente pesados", vistos como um processo tortuoso para toda a equipa.

Morgan conta que a sua personagem e a sua entrada em particular "não se compara com nada que alguma vez tenha feito", embora reconheça que o papel de Comediante, em "Watchmen - Os Guardiões", seja outro marco do seu percurso (até porque a graphic novel que o filme de Zack Snyder adapta está entre as suas favoritas e essa participação abriu-lhe as portas ao universo da BD nos ecrãs).

Jeffrey Dean Morgan

"Adoro a dinâmica de família do grupo mas também adoro a forma como o Negan interfere com ela", contrasta. "Há uma razão para ele ter sobrevivido ao longo de tanto tempo. Ele destrói a identidade das pessoas a obriga-as a adotar a dele. As medidas que toma para se proteger e proteger os outros são brutais, mas estamos a falar de um mundo com uma moral esbatida. Não diria que as atitudes dele são mais condenáveis do que as de outras personagens, incluindo as que são tidas como heróicas", elabora.

Mesmo as figuras que mais tentam combater a influência do mais recente vilão acabam por se sujeitar a ela de alguma forma. "O Daryl está completamente obcecado em matar este gajo", diz Reedus enquanto lança um olhar desafiante a Morgan. "Daryl nunca gostou de ser ele próprio. O apocalipse deu-lhe a oportunidade de crescer e de se envolver com estas pessoas que não conheceria e outra forma", analisa. "Acho que ele não seria um bom tipo num mundo normal".

Nicotero confirma a função de Negan enquanto catalisador do argumento. "Passámos a primeira parte da temporada a direcionar a história, a picar o percurso de várias personagens. E agora cada personagem que vemos já age como um soldado, gosto muito dessa ideia".

"A agressão molda a minha personagem, agredir é uma forma de entrar no processo de composição", partilha Morgan enquanto admite que agarrar em Lucille, o inseparável bastão de Negan, é logo uma boa forma de agarrar a personagem.

Dos zombies aos walkers

Se a espiral de violência de "The Walking Dead" tem aumentado, a custo das vidas de algumas personagens acarinhadas, o confronto entre humanos e walkers (ou humanos e humanos) não deve terminar tão cedo. Nicotero promete "mais 100 temporadas" entre risos, embora por enquanto só a oitava esteja confirmada.

O entusiasmo é compreensível: o responsável pelos efeitos especiais teve a primeira grande oportunidade em "Dia dos Mortos" (1985), de George Romero, curiosamente já no universo dos zombies, e tornar-se-ia um dos nomes mais reputados da caracterização no cinema com o KNB EFX Group, estúdio do qual foi cocriador. Mais de 400 projetos depois (incluindo sagas como "Gritos", "Evil Dead" ou muitas colaborações com Quentin Tarantino), acumula os cargos de produtor executivo e realizador ocasional de "The Walking Dead".

Greg Nicotero

"Nunca me dão os episódios fáceis de fazer. São sempre dezenas de walkers de um lado para o outro. Já matei mais gente do que qualquer outra pessoa", brinca. Não que as mortes sejam mesmo um problema, já que a paixão pelo terror é tão antiga como a relação com a morte. "Nunca sonho com zombies, cresci perto de um cemitério", esclarece.

Entre os primeiros zombies de Romero e a saga de Rick Grimes, as diferenças são muitas. "Tivemos muita sorte por nos darem 99 horas para contar esta história, para podermos acompanhar todas as personagens e as suas particularidades", assinala. E essa é a grande mais valia do formato de série face a "grandes filmes" como "28 Dias Depois" ou adaptações como "Resident Evil", que destaca como passos importantes para que "The Walking Dead" pudesse chegar a fenómeno global.

"Em séries como esta, 'Breaking Bad' ou 'A Guerra dos Tronos' temos a possibilidade de prolongar estas histórias, não temos apenas uma janela de duas horas. Toda a gente quer que o seu entretenimento seja um pouco esticado e quer mais", complementa. No caso de "The Walking Dead", as opiniões até se dividem, sobretudo depois das críticas à temporada anterior a que Nicotero também respondeu. Mas como os walkers já pertencem a uma imensa maioria depois do estatuto de nicho dos zombies de outros tempos, a passagem do produtor, Daryl e Negan por Lisboa não deixa de convocar milhares de fãs - e com dormida ao relento à porta de um teatro incluída. Por este andar, vai ser preciso mais do que um Negan para acabar com a brincadeira...

Fotos: FOX Networks Group Portugal

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