Artigo

Jogos de poder

"House of Cards" é Kevin Spacey, implacável e arrasador no papel de um congressista corrupto, sedento de vingança e sucesso. A cru, sem ideais, ética ou ilusões, expõe os bastidores da política norte-americana, coloca em causa o serviço dos média e revela a importância dos lobistas através da história de Frank Underwood.

É o regresso em grande de Kevin Spacey à televisão com um desempenho brilhante e ambicioso da personagem interpretada pelo elegante Ian Richardson na série original britânica de 1990. Apesar da estrutura governamental inglesa ser bem diferente da norte-americana, a forma de fazer política segue a mesma linha. Frank, ou Francis (como a mulher lhe chama), Underwood é um congressista democrata, da Carolina do Sul, que testa os limites da ambição. Um verdadeiro animal político, estratega, calculista, sem escrúpulos, sarcástico, dissimulado e muito inteligente, capaz de se manter acima de qualquer suspeita num jogo recheado de manobras ardilosas, astutas, desonestas e incisivas.

Criada por Beau Willimon, com produção executiva de David Fincher, que também realizou os primeiros dois episódios, "House of Cards" recusa idealismos e paixões. Trata a ânsia e a luta pelo poder sem preconceitos nem romantismos. Mostra uma humanidade crua, destroçada e corrompida pelo egoísmo, vaidade e arrogância. Ninguém acredita. Mas todos desejam, anseiam e conquistam influência em prol de um bem maior: o seu. Frank é implacável neste aspeto. “Bad, but for a greater good”, justifica - imbatível a mascarar planos e ações em benefício próprio, de tal forma que a determinada altura torna-se difícil distinguir os bons dos maus da fita. Afinal, é tudo uma questão de perspetiva, aquela que melhor servir os interesses de cada um.

Quando o espetador é cúmplice

A forma como Frank Underwood quebra a chamada quarta parede para se dirigir diretamente à audiência não é nova, mas está muito bem conseguida. Mais do que dar voz aos pensamentos da personagem, Spacey cria uma relação de proximidade e cumplicidade, partilhando os seus planos e explicando como se vence em política. Os diálogos também ajudam à conquista do público, que por muito que repudie os atos do congressista não consegue evitar o fascínio pela personagem e de desejar até o seu triunfo. Com o apoio incondicional da mulher, Claire (Robin Wright), cria uma imagem de sucesso e poder, que em muito a beneficia também. Juntos, transmitem a ideia de casal inabalável. Usam, abusam, movem e trocam influências ao sabor das suas ambições. Numa relação de extrema cumplicidade, de partilha de êxitos e fracassos, movida e sustentada pela comunhão de interesses, fere-se a ligação emocional. Quando os objetivos de um chocam com os do outro, Frank não hesita em salvaguardar os seus a qualquer custo. Apesar disso, luta para proteger os de Claire, mas fica a dúvida se a intenção não será apenas a de assegurar futuros ganhos.

Neste jogo de influências surge Zoe Barnes (Kate Mara), a jovem jornalista, ambiciosa, mais empenhada em destacar-se com grandes histórias do que em chegar à verdade. Audaz, procura Frank na tentativa de conseguir informações exclusivas da vida política e insinua-se o suficiente para deter a sua atenção. Mesmo atraído pelos seus atributos físicos, o que convence realmente o congressista é a possibilidade de manipular os média a seu belo favor. Confiante e sedutor, passa-lhe informações viciadas e secretas, que ela publica sem confirmar, com o único propósito de ajudar a cumprir os seus objetivos. As notícias polémicas garantem a rápida ascensão profissional de Zoe, mas valem-lhe também conflitos com o director, mais conservador, que ditam a sua saída do fictício The Washington Herald. Determinada a vingar à sua maneira, a jovem jornalista encontra na Internet a plataforma ideal e começa a publicar online num blog de sucesso… ao serviço de Frank.

O grande manipulador

Acima de tudo, a série conduz o público pelos meandros da política norte-americana na moderna Washington, D.C. e revela, a par da ação dos média, o poder dos lobistas, verdadeiros gestores e geradores de influências, representados por Remy Danton (Mahershala Ali). Frank Underwood sabe usá-los como ninguém. Traído pelos mais altos membros do seu próprio partido - que lhe prometeram o cargo de secretário de Estado assim que formassem governo, mas nomearam outro em seu lugar - finge acatar a decisão com sentido de responsabilidade e lealdade, mas na verdade persegue o objetivo de sempre ainda com mais tenacidade e ferocidade: tomar-lhes o poder e chegar a presidente dos Estados Unidos. Sem perder tempo e com a preciosa ajuda do seu fiel chefe de gabinete, Doug Stamper (Michael Kelly), encena uma farsa brilhante com o objetivo de liderar a reforma da educação, um dos grandes objetivos da nova administração. Para começar arrasa Donald Blythe (Reed Birney), republicano e responsável pelo primeiro esboço do projeto lei. Manipula-o com tanto requinte e de tal forma que este, além de decidir abandonar o cargo, ainda lhe oferece apoio.

Contudo, a sua maior vítima desta primeira temporada política é mesmo Peter Russo (Corey Stoll) - o congressista de Filadélfia, aspirante a governador da Pensilvânia, boémio, dependente do álcool, consumidor de drogas e frequentador de prostitutas. Peter está sempre a um escândalo de ser destruído e é salvo por Frank, que o manobra e controla à custa dessa dívida de gratidão, numa espécie de lealdade comprada. Não passa apenas de um peão a ser destruído em plena campanha para que o vice-presidente dos Estados Unidos, descontente no cargo que ocupa, renuncie e o substitua na eleição para governador da Pensilvânia, deixando o lugar e o caminho aberto para Frank. Peter perde o controlo, volta a mergulhar no álcool e insiste em ser responsabilizado pelos seus atos, pondo em causa toda a estratégia do seu “benfeitor”. Um erro capital. O ambicioso congressista é mesmo capaz de tudo para chegar ao poder e não hesita nem um segundo em matar o jovem político, simulando um suicídio.

Linda Vasquez (Sakina Jaffrey) é também uma peça fulcral nesta maquinação de Frank para chegar à vice-presidência e derrubar o líder do país. Chefe de gabinete da Casa Branca está muito próxima do presidente Garrett Walker (Michael Gill) e é uma aliada de peso. Foi recomendada pelo congressista, mas recusa-se a compactuar com ele. Nada que Frank não consiga resolver. Valendo-se de outras influências faz-lhe um grande favor pessoal, sem que ela lhe peça, convencendo-a do seu altruísmo. Linda está reconquistada e pronta a ser manipulada. Mesmo quando descobre as intenções do congressista não deixa de se sentir grata e reafirma-lhe o seu apoio. Frank vê-se a um passo da vice-presidência dos EUA, mas só a segunda temporada da série, em fase de produção, revelará o seu destino político. A par disso, adivinham-se mais conflitos no casamento com Claire, que começa a ponderar a ideia de ser mãe, mesmo sabendo que o marido nunca quis ter filhos.

"House of Cards" é a série de sucesso que a HBO e a Showtime perderam. A Netflix, um site de aluguer de filmes e séries de televisão, antecipou-se e comprou a ideia de David Fincher e Beau Willimon. Em Portugal, "House of Cards" é transmitida pela TV Séries.

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