Artigo

Objeto de Televisão Não Identificado

Nos últimos meses passou pela nossa televisão um OTNI: Objeto de Televisão Não Identificado. Bruno Nogueira, a quem se juntam Gonçalo Waddington e Tiago Guedes como criadores, é quem assim define a série "Odisseia", um evento em tudo extraordinário – a começar pela improvável hora e local de ocorrência: sábados, horário nobre da televisão pública.

No meio de constantes incertezas e discursos desequilibrados sobre o futuro da RTP, sobre o falso interesse na redefinição do que entendemos como serviço público televisivo, nasce justamente um exemplo que se opõe à lógica simplista que domina o meio e que tende a reduzir as audiências a números (para não dizer pior). Nesta "Odisseia" há espaço para pensar a relação com o espetador de forma complexa e lúdica.

A primeira vez que avistei este estranho objeto foi por puro acidente, e talvez não haja melhor maneira de estabelecer contacto. O formato é surpreendente e foge completamente aos modelos experimentados e repetitivos a que estamos habituados. Mantendo algumas semelhanças importantes com "O Último a Sair" – entre elas a confusão deliberada entre ficção e realidade –, a "Odisseia" leva-nos mais longe nesta road trip alucinante por caminhos de Portugal. Por isso, para aqueles que ainda não iniciaram viagem, talvez a crítica mais indicada se resuma a um simples “vejam!”.

Bruno Nogueira e Gonçalo Waddington (interpretando-se “a si próprios”) aparecem como os dois heróis desta aventura cujo título faz jus às ressonâncias épicas que carrega. Num momento em que as suas vidas parecem fazer pouco sentido, os dois amigos refugiam-se a bordo de uma autocaravana chamada Calipso e partem rumo à descoberta. Enquanto isto, uma outra narrativa se desenrola em paralelo em que Bruno Nogueira e Gonçalo Waddington são agora os argumentistas da série e Tiago Guedes o realizador. São eles que, tal como as três Moiras, vão fabricando e tecendo o destino das personagens. A sua influência é tão concreta quanto mágica, por vezes basta uma palavra para se fazer acontecer, outras vezes são as condicionantes que levam a melhor – o dinheiro (ou antes a falta dele), por exemplo, determina a acção seguinte, como acontece com a fabulosa cena à "Apocalipse Now em bonecos" (ep. 6), ou, mais drástico ainda, com o final abrupto da própria série.

O poder da palavra

A plasticidade, a beleza e exuberância das palavras é um aspecto central da "Odisseia". Isto fica claro não só nas elaboradas e enigmáticas falas do Oráculo (Miguel Borges), como também na evocação do génio de António Variações que, para além da música do genérico, tem também um episódio inteiro a si dedicado em que surge “em carne e osso” como o grande guru, aquele cuja poesia guarda a resposta para todas as inquietações humanas. Pelo caminho vão surgindo outros viajantes, entre eles os ilustres Nuno Lopes, Rita Blanco, ou Camané, todos representando uma espécie de versão freestyle de si próprios resultando em momentos absolutamente hilariantes.

Além deste intrincado jogo com as personas de cada um, com a documentação daquilo que se finge ser a realidade nas filmagens (e que tem no trabalho de Ricky Gervais talvez o seu parente mais próximo), a "Odisseia" reflete também sobre a realidade ficcional que se (re)produz e exibe em Portugal. O bom senso aconselha a que se façam distinções, mas em boa verdade é impossível fazer um zapping pelos canais portugueses sem se ficar ligeiramente nauseado com a vulgaridade da esmagadora maioria da programação do horário nobre. Entre novelas, apanhados e reality-shows, não se percebe como é que tantos milhares continuam a preferir a cópia ao original – afinal a internet facilita imenso o acesso à pornografia, com a vantagem de omitir as ruidosas interrupções de Teresa Guilherme.

Desconstruindo o sexo

Um dos aspetos mais interessantes desta série passa mesmo pela desconstrução do modelo dominante de representação da sexualidade. Faz-se um exercício curioso que desvenda o caráter fabricado que a velha ilusão de transparência esconde, põe-se a nu a fronteira que não existe entre a aparência do politicamente correto, engenhosa camuflagem, e o prazer naquilo que é baixo. Aliada a técnicas de filmagem básicas, forte iluminação e gargalhadas engarrafadas, etc., está a sugestão de que é cómico ver velhos impotentes a assediarem raparigas com pouca roupa ("Camilo, o Presidente", uma referência para um serão bem passado em família), ou que é normal e interessante seguir em direto (e depois em loop), através de câmaras de vigilância, a digestão do jantar ou as movimentações ritmadas de desconhecidos debaixo de lençóis ("Big Brother" ou "Casa dos Segredos").

Entre muitas outras, chamaram-me a atenção logo no primeiro episódio da "Odisseia" a cena onde Gonçalo olha com interesse para a empregada doméstica e lhe coloca esta simples questão: “Flávia já tem parceiro sexual?” No mesmo episódio, Gonçalo questiona Bruno acerca da sua relação com a agente: “Já lhe meteste a pilinha no pipi? Já jogaste ao tiranete com ela, já? Já lhe meteste o besidróglio no tubo de vácuo? Já meteste a banana no ananás? Já provaste o dióspiro? Já lhe fizeste a gazua de vagina? Aquela que entra, abre, vira e cah! Já jogaste ao ping-pong com ela? Raquete aqui, raquete ali? Toma lá dá cá? Já meteste o comboio ali todo no túnel?”

É extraordinário como a mera repetição da mesma ideia (a multiplicação de expressões de cariz sexual, neste caso), chama a atenção para si mesma e de forma tão eficaz quanto cómica é capaz de transformar completamente uma situação que à partida nos parecia familiar. É preciso sair fora do familiar. A "Odisseia" é um caso exemplar de um tipo de humor radical, criativo, absurdo e didático que faz falta.

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