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Uma família muito revolucionária

Produzida pela Amazon Instant, um dos novos players em termos de produção de conteúdos “televisivos” numa plataforma streaming, a comédia dramática «Transparent» é uma das melhores séries da temporada e foi disponibilizada por inteiro ao público, na linha do que a Netflix faz com as suas séries.

créditos: Lusa

Mas a revolução não passa apenas pela produção: o argumento de 20 quilates pertence a Jill Soloway, que retrata com humor, drama e autenticidade um acto de coragem na revelação de um pai que se torna transgénero aos 70 anos. Trata-se de uma história sobre a identidade e uma família disfuncional nas suas escolhas perante as mais inesperadas circunstâncias. «Transparent» é uma série que derruba barreiras e reflecte sobre novas fronteiras, géneros, legados, o amor e a família que possui claras influências de John Cassavetes, Robert Altman e uns pozinhos de Woody Allen.

O septuagenário Jeffrey Tambor interpreta Mort Pfefferman, um professor reformado que está num processo de transformação em Maura Pfefferman, num papel transgénero cheio de humanidade que define uma longa carreira. Recordamos que o actor tem uma carreira impressionante na televisão, tendo participado em séries definitivas como «A Balada de Hill Street » nos anos 1980, «The Larry Sanders Show» nos anos 1990 e «Arrested Development – De Mal a Pior» nos anos 2000.

«Transparent» levanta um punhado de questões de identidade não só do protagonista como na condição dos filhos que se debatem com os seus dilemas existenciais. A revelação do pai que decide assumir-se como uma mulher aos 70 anos coincide com um desaguar de vários segredos de família nesta série que reúne muito talento, a começar pelos três filhos adultos de Mort/Maud, interpretados por Amy Landecker, Gaby Hoffman e Jay Duplass, a ex-mulher interpretada por Judith Light.

A série estreou no dia do aniversário da criadora Jill Soloway, numa merecida prenda para quem viveu ao longo dos anos – prova disso mesmo é a carreira no teatro, cinema e televisão – no meio do debate entre o masculino e o feminino. A argumentista venceu um prémio de realização em Sundance em 2013 com o filme «Afternoon Delight», que retrata uma mulher que traz para casa uma stripper para viver com ela e o seu marido e a sua experiência em territórios desconhecidos já vem de séries que abordam famílias pouco tradicionais onde participou como argumentista: «Sete Palmos de Terra» e «United States of Tara».

Apesar de não ser autobiográfica, o pai de Jill Soloway também se revelou um transgénero já numa idade avançada. E não é só o argumento de «Transparent» que desafia as convenções: na produção, 20 transgéneros fizeram parte do elenco e da equipa técnica e mais de 60 foram contratados como extras.

Esta é uma série realmente transparente com interpretações cheias de autenticidade e um argumento universal que lida com o desconforto, a depressão e a ansiedade de viver na pele em que nascemos. Imperdível.

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