Artigo

Uma investigação sem inocentes

«The Fall» é uma produção da BBC criada por Allan Cubitt, autor que demonstra ser um mestre de territórios desconhecidos. A ação desenrola-se em Belfast, na Irlanda do Norte, onde a tensão evolui nas ruas de uma cidade com os ânimos eternamente quentes face à coroa britânica.

Stella Gibson (Gillian Anderson) é uma investigadora especial que vem de Londres para trabalhar num inquérito em redor do homicídio de uma mulher, envolvida com uma figura ligada ao poder politico, e depara-se com um padrão criminoso que comprova existir a possível presença de um assassino em série que ataca mulheres independentes e liberais.

A narrativa de Allan Cubitt é deveras perspicaz na construção das personagens centrais, que fogem aos habituais tiques de personagens tipo. Vamos conhecendo-as ao longo de duas temporadas onde serão revelados os traços e as motivações de Stella Gibson e do antagonista Paul Spector (Jamie Dornan). A série esteve em gestação desde 2009 e a riqueza na sua escrita é acompanhada por duas extraordinárias performances que absorvem por completo a audiência.

A promiscuidade entre a justiça e o poder político é também uma das frentes narrativas de «The Fall», que explora essencialmente os aspetos da violência face às mulheres, neste caso o poder e o erotismo de mãos dadas com a morte, mas também a violência doméstica. O vilão é baseado num indivíduo canadiano que foi condenado por homicídio de uma mulher e que até à sua prisão tinha um cadastro limpo e parecia um cidadão exemplar, tal como acontecia com o serial killer brilhantemente interpretado por Dornan.

O homicida canadiano tinha a tendência de entrar furtivamente na casa das pessoas e roubava roupa interior feminina. O modus operandi deste indivíduo é transposto para uma série que analisa de forma implacável a anatomia de um assassino em série que é invisível perante a sociedade. Paul Spector é um psicólogo familiar, pai de família e uma figura atraente que, no entanto, assassina ritualisticamente as suas vítimas.

A série humaniza todos os personagens, inclusive Spector, com o espectador a viajar até à psicologia por detrás da loucura de um autêntico assassino na sombra. Não deixa de ser fascinante a atração que os espectadores encontram neste exercício em torno de um predador calculista e letal, algo que seria impossível numa série sobre “quem cometeu o crime?”. E do mesmo modo há uma humanização face a todas as vítimas, as mesmas não são tratadas como adereços pois houve uma preocupação de Allan Cubitt em mostrar a vida e os hábitos destas mulheres, uma observação que é feita, em momentos, através de uma visão voyeurística do predador.

«The Fall» leva-nos a várias paragens de uma investigação com inúmeros contornos dramáticos. O policial dá lugar ao drama profundo e aos desejos mais recôndidos para rechear episódios de uma hora com as vicissitudes da natureza humana. Ninguém é inocente nesta série, nem sequer as crianças que protegem aqueles que amam.

A história é contada em duas perspetivas, a visão de dois caçadores: o assassino Paul Spector e a detetive Stella Gibson. A força da sexualidade é utilizada em diferentes polaridades: o homem face às mulheres e uma mulher num mundo de homens que se recusa a ser apagada na ordem vigente.

As duas temporadas de «The Fall» somam 11 episódios. Este policial dramático bateu recordes de audiência na BBC Two, sendo a série mais vista nos últimos oito anos. Inteligente e meticulosa, promete envolver em pleno os espectadores.

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