"Snu" é um filme de ficção inspirado em factos reais e que se centra num período da vida de Snu Abecassis, fundadora da editora Publicações Dom Quixote e que desafiou uma sociedade portuguesa, ao assumir uma união de facto com Francisco Sá Carneiro, quando este era casado.

Protagonizado por Inês Castel-Branco e Pedro Almendra, o filme é apresentado pela realizadora como "uma história de amor e coragem" que, apesar de estar assente na realidade, inclui "alguma poesia", como contou aos jornalistas no ano passado, durante a rodagem.

"A realidade por si só seria um documentário e isto é um filme [de ficção] e o cinema permite-me um bocadinho tirar os pés do chão", disse a realizadora.

O argumento foi escrito por Cláudia Clemente, com consultoria histórica de Helena Matos, e baseia-se nas biografias sobre Snu Abecassis e Sá Carneiro e em documentação da época.

No encontro com os jornalistas, na rodagem, Helena Matos descreveu esta produção como "um filme arriscadíssimo" pelo contexto político que recupera, pela própria particularidade da relação entre a editora e o político, pela polémica em torno do acidente em que ambos morreram, e porque é ainda uma memória recente da História de Portugal.

"Os portugueses não estão habituados a ver ficção com as suas personagens vivas. Passam a vida a dizer que ainda não é o tempo de falar das coisas, quanto mais fazer ficção. (...) Isto mexe com muita coisa. É provavelmente dos filmes portuguesas mais arriscados, porque se têm feito grandes histórias de amor e liberdade, mas estava tudo morto, estava tudo na paz dos cemitérios. E aqui ninguém está na paz dos cemitérios", disse.

Snu Abecassis e Francisco Sá Carneiro morreram a 4 de dezembro de 1980, quando o avião Cessna em que viajavam se despenhou em Camarate, pouco depois de levantar voo de Lisboa.

O filme começa e termina com referência ao dia do acidente fatal, mas a narrativa desenvolve-se sobretudo em torno da figura de Snu Abecassis, no trabalho na Dom Quixote, no pensamento interventivo, na oposição ao regime ditatorial e na união de facto, que causou polémica, com o então primeiro presidente do PSD, eleito primeiro-ministro.

Além da reconstituição da época, acentuada pela caracterização dos atores, escolha de espaços, guarda-roupa, no filme são incluídas imagens de arquivo nas quais surge o casal e há uma reconstituição histórica de vários momentos verídicos, nomeadamente a visita oficial do então presidente dos Estados Unidos Jimmy Carter a Portugal em 1980, a revolução de abril de 1974 ou a noite em que venceu as eleições legislativas.

Além de Snu Abecassis e Sá Carneiro, no filme estão representadas outras personalidades da cultura e da política portuguesas, nomeadamente Natália Correia, Diogo Freitas do Amaral e Mário Soares.

"O filme está carregado de coisas reais. Às vezes a realidade não é tão interessante, vamos por outros caminhos e, quando entramos na porta de intimidade, ninguém sabe", disse Patrícia Sequeira.

"Snu" é a segunda longa-metragem de ficção de Patrícia Sequeira, depois de "Jogo de damas" (2016), com produção da Sky Dreams.

Coincidindo com a estreia comercial do filme, a Dom Quixote reedita na próxima semana o livro "Snu e a vida privada com Sá Carneiro", da jornalista Cândida Pinto, publicada originalmente em 2011.

Desde a morte de ambos, em 1980, foram feitas várias obras de pendor biográfico sobre ambos, mas em particular sobre Snu.

Seis anos depois da morte da editora dinamarquesa, a mãe, Jytte Bonnier, escreveu a biografia dela, publicada em 2003, e que contou com prefácio de Marcelo Rebelo de Sousa, antigo presidente do PSD entre 1996 e 1999, atual Presidente da República.

Em 1983, Agustina Bessa-Luís escreveu "Os meninos de ouro", em que retrata a vida de Sá Carneiro com a mulher, Isabel, mãe dos cinco filhos do político, a paixão por Snu e a chegada dele ao poder.

Em 2007, Miguel Real publicou a novela "O Último Minuto na Vida de S.", adaptada para teatro, e, em 2011, Luís Filipe Rocha fez o filme "Camarate".

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