"Enquanto tocávamos este tema vieram-me as lágrimas aos olhos porque me apercebi que a vida é demasiado curta e acabámos de partilhar um belo momento", confidenciou Andy Barlow, a metade masculina dos Lamb, ao público que o acompanhou no Grande Auditório do CCB, já na recta final do concerto. O tema em questão era, claro, "Gabriel", de longe o mais popular do duo de Manchester e, por isso, presença quase inevitável no alinhamento da noite. E embora o single tenha rodado até à exaustão, há dez anos, não deixou de ser cativante nem de criar, como bem disse Andy, "um belo momento".

Felizmente, e ao contrário do que possa parecer aos mais desatentos, "Gabriel" nem será propriamente do melhor que os Lamb têm para oferecer e a actuação permitiu confirmá-lo. Nem foi preciso recorrer muito aos notáveis "Lamb" (1996) e "Fear of Fours" (1999), os primeiros (e mais recomendáveis) discos da dupla, uma vez que o recente "5", álbum que interrompeu um hiato iniciado em 2004, revelou-se especialmente apelativo ao vivo.

As novas canções, mesmo sendo resultado de um longo interregno, mantêm quase intacto o universo de Andy Barlow e Lou Rhodes: a combinação de melodismo e crueza electrónica continua lá, ainda que já não parta tanto de heranças do drum n' bass. A bateria e o contrabaixo foram, apesar de tudo, os instrumentos dominantes do espectáculo, roubando o protagonismo à ocasional presença da guitarra ou do piano.
Complemento desta vertente orgânica, a electrónica disparada por Barlow - por vezes de vibração quase dubstep, sobretudo nos novos temas - não perdeu a frescura com o passar dos anos e esteve no centro de alguns momentos altos. Foi o caso das recordações "Little Things" ou "Gorecki", fantásticos e vertiginosos cruzamentos de texturas que mostraram maior entrega tanto por parte da banda como do público -o segundo temaaté permitiu ver Andy e Lou na percussão com um entusiasmo infantil.

E assim, um concerto que arrancou em modo relativamente contemplativo, com "Another Language" (canção que também abre "5"), não demorou muito a obrigar os espectadores a prescindir do conforto das cadeiras. "Esta é nova e muito boa para dançar", avançou a vocalista antes de "Strong the Root", logo aos primeiros minutos. A sugestão foi aceite tanto aí como em "She Walks" (talvez a melhor das novas composições, em especial com imagens de cenários urbanos a acompanhar) ou na versão mais agreste do clássico"TransFattyAcid", revestida de energia rock n' roll num final visceral (onde nem faltaram luzes strobe para criar uma despedida apoteótica).

O desenlace, de tão explosivo, parece ter destruído qualquer hipótese de continuação. O público não deixou de aplaudir mesmo quando as luzes da sala foram ligadas, após a saída da banda, e até se manteve expectante enquanto dançou, durante largos minutos, quando já se ouvia música ambiente. Mas os Lamb, apesar dos elogios que dedicaram aos espectadores, a Lisboa e a Portugal ao longo da actuação, já não voltaram, dando por terminado o concerto ao fim de huma hora e um quarto - pouco mais do que o mínimo depois de uma ausência tão prolongada. Os fãs mais acérrimos poderão sempre reencontrar a dupla esta noite, no Coliseu do Porto, ou no showcase na FNAC do GaiaShoppping (às 18 horas). Os restantes, se não levarem a mal a atípica brevidade da actuação, provavelmente também não terão de esperar muito para um reencontro com uma banda que já é da casa.

Texto @Gonçalo Sá/ Fotos @Edson Vital

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