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Anohni no Coliseu dos Recreios: Longe da vista, longe do coração

Apesar da fortíssima vertente humanista de um álbum como "Hopelessness" e da voz expressiva da sua autora, a atuação de Anohni no Coliseu dos Recreios, em Lisboa, foi estranhamente fria e distante. E não só por a cantora britânica ter decidido esconder o rosto.

O arranque fez logo temer o pior. Numa sala pouco concorrida, depois de uma noite também sem grande adesão no Coliseu do Porto, Anohni começou por oferecer ao público, na passada quarta-feira, uma projeção de imagens a preto e branco de Naomi Campbell, protagonista do videoclip de "Drone Bomb Me" (um dos singles de "Hopelessness", editado este ano e mote para o espetáculo).
Entregue a movimentos de dança em câmara lenta, acompanhados de um burburinho a sugerir prenúncios de temporal, a antiga modelo foi a primeira de muitas mulheres a fixar a câmara - e os espectadores - ao longo da atuação. Mas ao fazê-lo durante vinte minutos centrados nesse loop visual e sonoro, deixou uma introdução pouco auspiciosa quando um quarto desse tempo já teria dado conta do recado. Assim, o suposto apelo à concentração foi tendo o efeito contrário e deixou algum público disperso, convocou assobios pontuais e levantou dúvidas em relação às opções do espetáculo que se seguiria - um espetáculo que dificilmente poderá ser considerado um concerto.

A artista transsexual até aqui conhecida como Antony Hegarty, dos Antony and the Johnsons, já tinha alertado que a apresentação do seu álbum de estreia enquanto Anohni teria contornos diferentes do habitual num concerto pop. Mas não teremos saído a ganhar com a troca depois de uma introdução tão longa e presunçosa, que só seria desculpável caso conduzisse a um espetáculo de grande fôlego. Ou pelo menos um espetáculo mais interessante do que o que a noite guardava.

Infelizmente, o que se seguiu deixou a desejar tanto pela duração - pouco mais de uma hora - como pelo formato. Se em "Hopelessness" Anohni propôs uma transfiguração surpreendente, desviando-se da pop de câmara do projeto anterior, intimista e pessoal, rumo a uma eletrónica com uma postura mais engajada e incisiva, aberta ao mundo como até aqui nunca tinha feito (apesar de questões de identidade de género ou preocupações ecológicas já estarem no trabalho anterior), a passagem para o palco manteve pouca dessa urgência.

Acompanhada de dois músicos, Dan Lopatin (ou Oneohtrix Point Never, que produziu o disco ao lado de Hudson Mohawke) e Chris Elms (colaborador habitual de Björk), a cantora apresentou-se com uma túnica, capuz e o rosto coberto, um contraste com os grandes planos de muitas mulheres, de várias idades e etnias, que foram sendo projetados no ecrã ao fundo do palco.

Anohni no Coliseu de Lisboa

Cada canção foi contando com uma cara diferente, quase sempre com uma expressão magoada enquanto entoava a letra, processo através do qual Anohni quis dar voz àquelas que poucas vezes se fazem ouvir. E em última instância, deu-lhes também o seu rosto, ocultando-o do público.

O gesto feminista até pode ser sincero, e faz sentido quando integrado no contexto de um disco como "Hopelessness", com canções de protesto cujas questões são tão contemporâneas como a sonoridade: vão do apontar de dedo ao militarismo dos EUA aos perigos do aquecimento global, temáticas embaladas em eletrónica vanguardista q.b. (o discurso poderá ser debatível, mas a tomada de posição é meritória). Só que a opção estética seguida ao vivo não fez justiça a alguma da pop mais subversiva do ano, assentando numa sucessão de rostos cujo efeito se esgota ao fim de um par de temas.

Tendo em conta esta limitação cénica e a pose discreta dos dois músicos, cabia inteiramente a Anohni dar alguma intensidade e alma ao espetáculo. Mas não só nunca se dirigiu ao público, limitando-se a debitar as canções num registo de linha de montagem, como por vezes nem pareceu dar conta de que estava a ser observada. A postura estática dos primeiros momentos em palco foi dando lugar a ligeiras movimentações, mas o mero abanar de braços não foi grande avanço face à mera figura de corpo presente - em algumas situações até foi mais constrangedor, ao nível da dança numa sala de estar entre amigos. E assim valeu-lhe apenas a voz, tão possante e maleável ao vivo como em disco, mesmo com a sugestão do playback a aparecer em alguns momentos - e a piorar o balanço de uma atuação com tantos instrumentais pré-gravados.

Se é verdade que desta forma o espetáculo foge ao modelo convencional de concertos pop, a ousadia fica-se pela aproximação a uma mostra de videoclips já de si pouco interessantes. E é pena quando não faltaram boas canções, desde singles convidativos como "Drone Bomb Me" e "4 Degrees" ao desconcertante retrato do "Big Brother" (ou, no caso, "Big Daddy") de "Watch Me", passando pela balada "I Don't Love You Anymore", um dos raros pontos de contacto de "Hopelessness" com a fase Antony and the Johnsons. Já "Obama" mostrou-se um tremendo acidente ao vivo, com a imponência sóbria do original a resvalar para a maior cacofonia da noite - a sobreposição de vozes, cantada e gravada, não ajudou.

Quando a nível performativo houve tão pouco a reter - é difícil encontrar um espetáculo que não deixe um momento memorável entre o artista e o público -, a única mais-valia da noite foi a interpretação de canções inéditas, que não chegaram a compor o alinhamento do álbum. Temas como "Paradise", "Ricochet" ou "In My Dreams" deixaram no ar que a criatividade de Anohni está longe de se limitar ao primeiro disco, prometendo tão bom ou melhor a caminho. Mas espetáculos como este obrigam a pensar duas, três ou quatro vezes antes de voltar a sair de casa para a ouvir.

Fotos: Rita Sousa Vieira

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