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Michael Caine prefere fazer de velho em vez de morto

A estrela juntou-se a Jane Fonda, Harvey Keitel e Rachel Weisz na apresentação no Festival de Cannes de «Youth», o novo trabalho de Paolo Sorrentino, o realizador do aclamado «A Grande Beleza».


Para Michael Caine, 80 anos, a única alternativa a interpretar velhos «é interpretar mortos».

Em «Youth» [Juventude], o seu novo filme, exibido na quarta-feira no Festival de Cannes, o sempre sarcástico ator resiste a viver seu último grande momento de glória: aceitar um convite da rainha Elizabeth II da Inglaterra, que na vida real o proclamou «Sir».

Fred Ballinger (Michael Caine), Mick Boyle (Harvey Keitel) e Brenda Morel (Jane Fonda) - que juntos somam mais de 200 anos -, representam a quintessência de vidas plenas, mas já no ocaso de sua existência, que cada um administra à sua maneira.

Fred, um reputado diretor de orquestra e compositor aposentado que não deseja voltar a pisar nos palcos após a ausência da mulher, que depois de ser diagnosticada com Alzheimer passa a viver em um asilo; Mick, um cineasta em crise criativa, que tenta concluir um argumento para o seu último filme; Brenda, que o abandona pelas séries de televisão que pagam mais que o cinema.

Além dos veteranos, aparecem Lena (Rachel Weisz), filha e ajudante de Fred, e Jimmy Tree (Paul Dano), outro hóspede do hotel nos Alpes suíços em que Fred e Mick passam as férias.

No cenário idílico e calmo, o tempo parece congelado, como quando Fred faz do silêncio uma orquestra imaginária, formada pelas vacas do local.

«Na vida, todos somos figurantes», afirma um dos personagens de «Youth», rodado em inglês.

Nada impede uma pessoa de ser jovem mesmo que ela tenha 80 anos: esta é a mensagem do cineasta italiano Paolo Sorrentino (do aclamado «A Grande Beleza»), que, com a sua particular visão estética do cinema, une música e imagens como se estivesse num ballet visual que faz, a partir da velhice e da decadência, uma homenagem à juventude.

Ambientado no antigo sanatório para tuberculosos de Davos (Suíça) no qual o escritor alemão Thomas Mann escreveu a sua obra-prima «A Montanha Mágica», Sorrentino faz uma pequena menção a Maradona, que está hospedado no mesmo local.

«Com a idade, tudo o que você faz é pior», afirma uma das personagens do filme do realizador italiano, que perdeu os pais aos 17 anos num acidente com gás e que aos 25, há quase duas décadas, abandonou os estudos de Economia para começar a criar sua visão pessoal da Sétima Arte.

Para Sorrentino o filme é «muito otimista e uma excelente oportunidade para exorcizar o medo» da passagem do tempo, do envelhecimento, da morte física e mental.

«A idade é uma questão de atitude. Quando se tem uma paixão na vida, permanece jovem», disse na conferência de imprensa uma elegante Jane Fonda, que demonstrou na prática sua eterna juventude.

«O futuro é uma grande oportunidade de liberdade e a liberdade é uma grande grande oportunidade da juventude», afirmou por sua vez Sorrentino.

«Youth» não deixou ninguém indiferente: o filme recebeu aplausos, mas também algumas vaias.

Mas boa parte da crítica considera Sorrentino um candidato sério para os prémios de Cannes, que serão anunciados no domingo, 24 de maio.

O italiano é presença constante no festival, onde recebeu o prémio do júri em 2008 por «Il Divo». Na edição de 2013, «A Grande Beleza», aclamado pela crítica e que recebeu o Óscar de Melhor Filme Estrangeiro, deixou Cannes sem prémios.

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