A HISTÓRIA: Michèle parece indestrutível. Responsável de uma grande empresa de jogos de vídeo, ela gere os seus compromissos como a sua vida sentimental: com mão de ferro. A sua vida transforma-se na noite em que é agredida em sua casa por um misterioso desconhecido. Quando consegue descobrir o rasto desse homem, ambos entram num estranho e excitante jogo – um jogo que, a qualquer momento, pode ficar fora de controlo.

"Ela" está disponível na HBO e em video-on-demand.


Crítica: Hugo Gomes

Isabelle Huppert é mais que uma atriz num imenso papel, é a representação do desejo inconcebível no cinema, seja da ingenuidade testada em “Amador” (Hal Hartley, 1994), passando pelo fetichismo sádico de “A Pianista” (Michael Haneke, 2001) até chegar a este "atentado" ao mundo embalado no politicamente correto que é “Elle - Ela” (2016).

Antes de avançarmos para o universo sexualizado e masoquista de “Ela”, devemos focar-nos no homem que o orquestra, o holandês Paul Verhoeven. Um antigo antagonista do bem sagrado que “emigrou” para a indústria norte-americana para nos dar como presente as suas “delícias turcas”: foi a violência capitalizada pelas corporações em “RoboCop” (1987); o militarismo autoritário de “Soldados do Universo” (1997); a sátira mais ou menos incompreendida da indústria do desejo em “Showgirls” (1995); e, por fim, possivelmente o seu maior êxito em terras "yankees", “Instinto Fatal” (1992), carregando desejo e perversidade à imagem da "femme fatale".

Nesse período, o cineasta foi um herói desprezado, automaticamente catalogado por conotações misóginas e de claro fetichismo gráfico e explícito. Mas uma considerável reavaliação e lenta progressão do seu estado de graça aconteceu com a fuga de Hollywood e das suas limitações após uma das suas piores obras (“O Homem Transparente”, uma versão de análise à perversidade ao mito do Homem-Invisível).

Paul Verhoeven na rodagem de "Ela"

Após o curioso sucesso de "Livro Negro" (2006), Verhoeven afastou-se dez anos e quando regressou, aventurou-se em territórios negros cada vez mais proibidos ao género masculino: a fantasia sexual da mulher.

Afastando-se do "mainstream" deslavado de um “As Cinquenta Sombras de Grey”, por exemplo, “Ela” inicia-se através de um "Cavalo de Troia", um isco às nossas consciências, que é a violação.

A partir daqui, regressamos automaticamente ao dispositivo de vingança no cinema em voga na década de 70 e da sua falsa imposição de mulher forte, mas Michèle, a personagem de Huppert, é a vítima de uma monstruosidade sem saber que foram abertos alçapões tenebrosos da sua inconsciência: o sexo, cada vez mais monótono para esta cinquentona socialmente dominante, é injetado com uma frescura mórbida e a traumática experiência é o seu mais negro fetiche.

Apesar de ser uma obra esteticamente limpa de um realizador habituado ao peso da sua agressiva falsidade (basta olhar para “Robocop” ou “Desafio Total” para acertarmos no seu tom), em “Ela” surgem os ecos de “Instinto Fatal”.

Isento dos fascínios pelo território sexual entreaberto, é o passo em frente e sucessivamente recuo para servir de mirone à posição da mulher na sociedade. A total emancipação de Michèle deriva da sua importância de abraçar os seus demónios interiorizados, porque uma mulher que persegue as suas próprias e mais íntimas fantasias é como um terror impercetível para os homens que não acreditam na igualdade de géneros. E se acreditarmos realmente nisso, “Ela” é um filme feminista e um ato de provocação.

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