Da Escola de Música do Nacional (EMCN) ao Largo Camões e daí para o Rossio, para depois fazer o percurso de volta, cerca de uma centena de alunos de música levaram hoje pelas ruas cartazes, faixas, fotografias ilustrativas da degradação do edifício que alberga a escola e, simbolicamente, um caixão.

“Nós hoje não vamos enterrar ninguém. Estamos a sensibilizar para aquilo que seria o enterro da música, aquilo que seria se desistissem da música, se o ministério não der as verbas para a reconstrução do conservatório e se não continuar a apoiar a música, em especial o Conservatório Nacional”, disse à Lusa Raquel Alves, presidente da associação de estudantes da EMCN e organizadora da manifestação.

O objetivo, explicou, é não deixar que a atenção conseguida nas últimas semanas, com protestos e denúncias, caia no esquecimento da opinião pública e da tutela: “Já nos sentimos satisfeitos por terem dado por nós. Não se esqueçam novamente”.

A diretora da escola, Ana Mafalda Pernão, que acompanhou os alunos até ao Largo Camões, sublinhou que os alunos “têm estado ao lado da sua escola e têm querido mostrar que estas não as condições para se poder ter condignamente aulas”. “Sem condições para a música e para a cultura nacional o país fica mais pobre e parece que morre qualquer coisa”, acrescentou.

O trajeto, que até ao Largo Camões decorreu sem pressas, ao toque de um rufar de tambor que acentuava o silêncio dos manifestantes, teve na sua primeira paragem o momento mais simbólico do protesto, com uma breve atuação dos alunos. Junto à estátua do poeta Luís Vaz de Camões interpretaram a ‘Marcha Fúnebre’ de Chopin, para colegas, professores, e alguns turistas que passavam pela zona do Chiado, que se juntaram para ver e quiseram saber do que se tratava.


Diogo, aluno do Conservatório, que com alguns colegas transportava uma extensa faixa negra, explicou à Lusa que as aulas na escola, desde o encerramento de 10 salas por falta de condições de segurança, têm sido “um caos”, mesmo depois de se ter adotado um sistema de rotatividade entre salas. “Continua a haver o mesmo problema, que é distribuir o mal pelas aldeias. E nem sequer é bem distribuído, porque nem todas as salas estão em condições de ter todo o tipo de alunos. Os sopros não podem estar ao pé de piano, ao pé de guitarras. Os cantores não podem cantar em certo tipo de salas, que não estão insonorizadas”, relatou. O aluno contou que com o encerramento das salas há aulas que “não se têm de todo” e outras que apenas podem frequentar “durante breves momentos, enquanto se resolvem certas situações logísticas”.

O impacto da situação no ano letivo é ainda uma incógnita. “A avaliação obviamente que está a ser um pouco prejudicada. Isto não é um ensino que se estude para ter uma avaliação no dia seguinte. É um ensino que todos querem, todos os dias, tentar mais e melhor. Exige prática, exige entrega, não é um ensino dito normal”, afirmou.

Dez salas foram encerradas por motivos de segurança, na sequência de uma vistoria da Câmara Municipal de Lisboa, em fevereiro. Na passada semana, os alunos fecharam a escola a cadeado e concentraram-se à porta do edifício, num protesto apoiado por pais e professores.

A direção da EMCN reuniu com a Direção-Geral dos Estabelecimentos Escolares na quinta-feira passada, tendo agora que apresentar orçamentos para a realização de obras de recuperação do edifício, e que Ana Mafalda Pernão gostava que pudessem começar ainda nas férias da Páscoa.

A diretora insiste ainda na necessidade de reunir com o ministro Nuno Crato, tendo já apresentado um pedido, ao qual não obteve ainda resposta. “Para nós é essencial, porque achamos que está no tempo de nos responderem aquilo que pretendem fazer com a escola”, disse.

@Lusa

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