Pelos recintos do festival
Matt Groening pode bem dar autógrafos, enquanto ao lado um dos talentos da Pixar pára para beber um copo. E nas sessões, não há lugares cativos. As estrelas sentam-se onde houver lugar, ao lado dos comuns mortais num festival que também é feira e mercado de trabalho para os mais talentosos com um golpe de sorte.

Ainda que alguns reclamem para si o título de festival de animação mais relevante do mundo, o troféu continua a estar em Annecy. Os defensores de um cinema de animação de autor juntam-se aos filmes virados para o grande público, as antestreias invadem as salas e os grandes nomes da animação mundial chegam à cidade francesa junto à fronteira com a Suíça para, durante uma semana, misturarem trabalho com passeios num cenário alpino.

Mas em Annecy não há a passadeira vermelha de Cannes, nem a dificuldade em chegar às estrelas que há em Veneza ou em Berlim. Estes grandes nomes não são os mais conhecidos do grande público mas, para os fãs da animação, Annecy é o sítio para se estar no final do mês de Maio já que é por lá que está também a mais cremosa nata do meio.

Este ano, andaram «à solta» por Annecy nomes como os de
Matt Groening e
David Silverman (criadores de
«Os Simpsons»),
Jeffrey Katzenberg (Director da Dreamworks),
John Musker e
Ron Clements (realizadores de
«A Princesa e o Sapo»,
«A Pequena Sereia» e
«Aladdin»),
Tim Rice (criador das letras de musicais como «Evita» e de algumas das mais emblemáticas bandas sonoras da Disney, como
«Rei Leão»),
Nick Park (autor de
Wallace e Gromit) ou
Ari Folman (realizador de
«A Valsa com Bashir»).

Todos se moviam no meio do público, sem tratamento especial e com vontade de conversar com quem os abordasse para um simples «olá», um autógrafo ou até para uma entrevista de emprego improvisada.

De entre os 7600 acreditados em Annecy, entre profissionais, produtores, convidados e jornalistas, há uma enorme parcela de estudantes, de pasta debaixo do braço, a correr para as sessões como para um concerto do seu ídolo favorito e sempre, mas sempre, à espera de uma janela de oportunidade para mostrar o seu trabalho àqueles que mais admira.

As tradições de Annecy

No festival que agora comemorou os seus cinquenta anos há rituais que chegaram há muitos e nunca mais partiram. Antes de cada sessão, é exibido um pequeno filme de animação que serve de desculpa para mostrar os patrocinadores do certame. E desde há alguns anos que, em algum momento desse genérico, há a presença assídua de um coelho. No momento em que o animal aparece toda a audiência grita um sonoro «Le Lapin» (a palavra francesa para coelho).

Sem grande nexo ou explicação racional, reza a lenda que em 2004 o coelho apareceu pela primeira vez e, apenas porque alguém começou a dar o grito de ordem, a tradição manteve-se até hoje e, agora, o «lapin» nunca falha um ano em Annecy.

E, claro, a chuva de aviões de papel quase podia ter direito a entrar na programação do evento. Antes de todas as sessões, sem excepção, os espectadores (convidados incluídos) fazem aviões de papel com o que tiverem à mão e atiram-nos para o ecrã da gigantesca sala do Bonlieu. Os que chegam mais perto ganham uma portentosa salva de palmas.

Annecy é um mercado, uma competição e um palco para mostrar trabalho mas é também um livro de história com mitos, rituais e tradições em que todos participam e com que todos convivem pacificamente. Mesmo quando, durante uma apresentação da Pixar, a tradição leva um aluno mais entusiástico a gritar a plenos pulmões «Hire Me!» na esperança de voar de Annecy para o local de trabalho com que todos sonham.

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