A história dramática do processo legal de divórcio de Viviane, uma batalha com mais de cinco anos de duração junto de um tribunal rabínico – autoridade legal competente para dirimir estes casos, em Israel. Assinado pela dupla Ronit e Shlomi Elkabet, é um retrato impiedoso da condição da mulher israelita, dependente da vontade e decisão do marido para poder anular o casamento e seguir com a sua vida.

Apresentado na quinzena de realizadores do festival de Cannes e nomeado para Globo de Ouro de filme estrangeiro, «Gett – O Processo de Viviane Amsalem» reflete sobre um processo judicial em concreto: Viviane, cansada de um casamento falhado, deixou o marido e deseja concretizar, de forma legal, os seus intentos para evitar a exclusão social decorrente da situação presente. A inexistência de casamentos civis dificulta a situação da mulher que procura o divórcio pois apenas se aplica a lei religiosa, a qual determina o poder do marido em conceder a separação plena.

O ambiente fechado, opressivo e quase claustrofóbico da atmosfera do filme, reforçado pelo facto da câmara quase nunca sair da sala do tribunal durante as duas horas de duração, acentuam o pendor dramático da situação. Situação reforçada pela ausência de exteriores pois a realidade é o processo judicial e não há mais nada para além disso durante os seus cinco anos de duração.

Assistimos à encenação das sucessivas audiências com a progressiva deterioração do estado emocional dos protagonistas: Viviane de um lado e o seu marido Elisha do outro, representados pelos respetivos advogados perante um trio de juízes rabínicos, zelosos guardiões da moral, dos costumes e do cumprimento da lei eclesiástica judaica.

Mas foquemo-nos na questão central: em Israel, como confirmam os realizadores do filme, todos os casamentos são regidos pela lei religiosa e, quando uma mulher se casa, fica «desprovida de Gett», ou seja, do direito ao divórcio, pois apenas o marido tem o direito de decisão final.

Durante as audiências, os rabinos, apesar de sustentarem que fazem tudo para ajudar as mulheres, procuram, acima de tudo, preservar o matrimónio e «o lar judeu». E como fica a esposa, cansada do casamento e inibida de se divorciar – uma mulher nessa condição, a viver fora do lar conjugal nunca poderá constituir uma nova família e os filhos que possa vir a ter fora do casamento serão marginalizados pela sociedade judaica, sem estatuto nem proteção legal.

A abordagem formal do ponto de vista da realização foi interessante: situar a câmara no ponto de vista de uma das personagens, que observa a outra, ou seja, nunca filmar a partir da posição do realizador que está a assistir, mas sim da perspetiva dos protagonistas que estão em ação. É o chamado ponto de vista subjetivo, que acentua a carga dramática e emotiva à narrativa e confere aos atores um destaque reforçado na ação do filme.

Dito isto, convém destacar a singularidade deste objeto cinematográfico invulgar, gerado a partir dum argumento competente, com um elenco de qualidade do qual se destaca a protagonista e realizadora Ronit Elkabetz, numa progressão narrativa exemplar e com um desenlace verosímil.
SÉRGIO ALVES
REVISTA METROPOLIS